OPINIÃO – O CARRO DO DONO (Estacionamento Rotativo em Torres)

"Deixando de lado as explicações técnicas sobre o funcionamento do rotativo (até porque elas deverão, aos poucos, ser apresentadas de alguma forma), prefiro focar nas consequências dessa implantação"

5 de novembro de 2025

Sempre ouvi alguém dizer — meio em tom de piada, meio em tom de verdade — que a maioria dos carros estacionados em frente a um comércio é do próprio dono ou de algum funcionário.

Nunca soube ao certo quem inventou essa teoria, mas ela parece resistir ao tempo com a teimosia das verdades populares. E o curioso é que, se olharmos com atenção, há algo de muito verdadeiro nela: esses carros, tão fiéis ao meio-fio, ocupam justamente o lugar de quem poderia ser o cliente.

A já confirmada instalação de cobrança por vaga de carro em parte da cidade — o chamado estacionamento rotativo — me fez lembrar dessa verdade oculta nas conversas informais (e até formais). O fato é que realmente algo precisava ser feito diante da escassez de locais para estacionar, principalmente na área central. Mas será o rotativo a resposta que esperamos ou mais um daqueles remendos urbanos que tentam resolver o efeito, e não a causa?

Já escrevi sobre mobilidade urbana na época da tentativa de implantação de um programa do governo anterior chamado “Mobilidade Humana”. O projeto teve um início pomposo, mas desapareceu durante o mandato do gestor. Os resultados da pesquisa foram apresentados, mas nada foi implantado — a não ser a curiosa construção da “praça do balão”, que em nada contribuiu para a tal mobilidade humana. Ou, ainda, a reabertura de um trecho de avenida em um cruzamento que havia sido fechado justamente por riscos de acidente e por comprometer a fluidez do trânsito.

De fato, o centro da cidade anda apertado. É difícil encontrar lugar para estacionar, especialmente nos dias em que o calor e o movimento se confundem com a pressa. Algo precisava ser feito, sem dúvida.

Enfim, aprovaram o estacionamento rotativo — e o que temos agora é outro Frankenstein. Como será implantado? Quais melhorias, além da suposta criação de vagas durante o dia, esse sistema trará para moradores, turistas e veranistas? Essas são apenas algumas das muitas questões levantadas pela comunidade.

Deixando de lado as explicações técnicas sobre o funcionamento do rotativo (até porque elas deverão, aos poucos, ser apresentadas de alguma forma), prefiro focar nas consequências dessa implantação.

Primeiro, é preciso observar como funcionam os rotativos em outras cidades turísticas — imagino que isso tenha sido feito pelos vereadores e pela gestão municipal antes da escolha da empresa responsável pela operação. Após essa verificação, seria necessário definir os locais onde realmente há necessidade desse tipo de controle. Torres, pelo seu porte, não precisa ter estacionamento rotativo em todas as ruas para resolver o problema de vagas diurnas.

Superada essa etapa básica, vêm as discussões sobre formas de cobrança e tipos de vagas — o que exige um estudo mais detalhado sobre o número de idosos e de pessoas com deficiência, já que essa população cresce a cada ano. Basta observar a demanda nas vagas reservadas em mercados e shoppings.

Apesar de alguns gestores acharem simples essa implantação, ela está longe de ser. No mínimo, é preciso conhecer o destino da arrecadação e garantir que ela seja revertida em melhorias — ao menos nas ruas onde a cobrança será feita.

O tempo, como sempre, nos dirá se o rotativo veio para organizar ou apenas para confundir. Enquanto isso, continuo acreditando que há mais verdades do que se imagina naquela velha piada: talvez o problema não esteja na falta de vagas, mas no hábito que temos de ocupar o espaço que deveria ser do outro.

 

** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente condiz com o posicionamento deste meio de comunicação**




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