Antes de ser Praia da Cal, ela foi Praia da Olaria. E muito antes dos veranistas, dos prédios e do movimento de hoje, aquele trecho da cidade era marcado pelo barro, pelo fogo dos fornos e pelo trabalho pesado das antigas caieiras.
A nossa conhecida Praia da Cal recebeu esse primeiro nome ainda no século XIX, por volta de 1844. Na extremidade sul da praia, junto ao promontório, funcionou, nos tempos do Ten. Cel. Francisco de Paula Soares de Gusmão, uma fábrica de telhas e tijolos.
Soares de Gusmão nos deixou um relato minucioso sobre a existência e o funcionamento desse empreendimento, construído por ele próprio:
“Este segundo outeiro, conhecida [sic] pela Torre do Meio, em razão de sua situação entre as outras duas, não deixa de ser notável, porque no seu cimo tinha uma bacia ou depósito de águas da chuva, que formava uma lagoa, no fundo da qual encontrei excelente barro para telha e tijolo, do qual me aproveitei, fazendo para o mar um profundo rasgamento por onde esgotei, a fim de aproveitar-me de todo o barro que tinha em si.”
Naqueles tempos, tudo era difícil: uma vila pobre, distante de quase tudo, mas precisando crescer. Soares de Gusmão percebeu que a natureza já oferecia quase tudo — faltava apenas transformar aqueles recursos em matéria útil para a pequena vila.
Utilizando o barro retirado da parte alta da Torre do Meio, ele instalou, ao pé do morro, um forno que passou a produzir telhas e tijolos para as construções militares, para seus próprios projetos e também para os moradores locais.
Mas levantar paredes não dependia apenas de telhas e tijolos. Era preciso também a cal — material caro e difícil de conseguir naquela vila isolada. Como os sambaquis estavam próximos dali, logo o forno passou a servir também para a fabricação da cal usada nas construções civis e militares da época.
Juntos, esses recursos permitiam erguer uma vila que ainda dava seus primeiros passos.
Ao que tudo indica, a atividade ligada aos fornos daquele trecho da praia atravessou muitas décadas. Com o passar do tempo, a fabricação de cal acabou se sobrepondo à produção de telhas e tijolos. As antigas caieiras passaram então a definir a paisagem e a identidade daquele lugar.
Já no século XX, aparecia como proprietário do Rancho da Cal o conhecido acendedor de lampiões Eloi Krás Borges.
E foi assim que o fogo das caieiras acabou apagando da memória o antigo nome de Praia da Olaria. Restou a Praia da Cal — um nome que ainda guarda, escondido nas palavras, vestígios daquele tempo de barro, fumaça e construção.
Fonte: Leonardo Gedeon, O passado em ruínas: turismo e patrimônio arqueológico em Torres/RS.
