Turismo de sol e mar tem prazo de validade? (PARTE 2)

"Projeções globais indicam que, até o final deste século, uma parcela significativa das praias arenosas do planeta poderá sofrer perdas importantes. Apesar dessas projeções mundiais, a realidade observada em Torres apresenta algumas particularidades."

7 de junho de 2026

Na coluna anterior vimos que o turismo de praia não surgiu por acaso. Aquilo que hoje parece natural — passar horas à beira-mar, tomar banho de mar, buscar o bronzeado perfeito — é, na verdade, uma construção cultural relativamente recente.

Durante séculos, o mar foi visto com medo. Depois virou remédio. Mais tarde tornou-se lazer. E foi assim que nasceu o turismo de sol e mar que ajudou a transformar cidades como Torres.

Mas se esse modelo foi criado pelos seres humanos, ele também pode ser transformado.

E a primeira questão nem diz respeito aos turistas.

Diz respeito à própria praia.

Quando pensamos no futuro do turismo de sol e mar, costumamos imaginar hotéis mais modernos, novas tecnologias ou mudanças nos hábitos de viagem. Porém existe uma pergunta mais básica: as praias continuarão existindo da forma como as conhecemos hoje?

A questão não é exagerada.

Projeções globais indicam que, até o final deste século, uma parcela significativa das praias arenosas do planeta poderá sofrer perdas importantes em razão das mudanças climáticas e da elevação do nível dos oceanos.

Apesar dessas projeções mundiais, a realidade observada em Torres apresenta algumas particularidades. Na Praia Grande, por exemplo, percebe-se até mesmo um aumento do depósito de areia em determinados períodos. Nas demais praias do município também não se observam processos erosivos significativos ou alterações marcantes de extensão ao longo das últimas décadas.

Outro fator observado em diversas regiões costeiras é o fenômeno conhecido como “esmagamento costeiro”. Ele ocorre quando a urbanização avança cada vez mais sobre a orla, reduzindo o espaço disponível para que a praia se adapte naturalmente às mudanças do ambiente.

Embora esse processo ainda não seja evidente em Torres, os sinais de alerta existem. O crescimento da construção civil, com edifícios cada vez mais altos e a ocupação de áreas antes pouco exploradas junto à costa, mostra que essa possibilidade não pode ser ignorada.

Existe uma ironia nesse processo.

O próprio sucesso dos balneários pode contribuir para ameaçar aquilo que os tornou desejáveis. Prédios, ruas, estacionamentos e outras estruturas construídas para aproveitar a proximidade com o mar acabam limitando a dinâmica natural das praias.

Em outras palavras, aquilo que atrai as pessoas para o litoral pode, aos poucos, comprometer sua preservação.

Mas não é apenas a areia que preocupa.

A qualidade das águas também se tornou um desafio crescente.

Não é novidade para ninguém que as águas costeiras vêm sofrendo com a poluição em diversas regiões do Brasil e do mundo. A combinação de esgoto sem tratamento adequado, resíduos sólidos e contaminação por microplásticos já afeta praias que, até pouco tempo atrás, eram referências de balneabilidade.

Torres não está isolada dessa realidade. Embora a situação ainda pareça sob controle, basta observar o crescimento da cidade para perceber que a preservação da qualidade das águas será um dos grandes desafios das próximas décadas.

Uma praia limpa está se tornando um patrimônio cada vez mais raro — e, justamente por isso, cada vez mais valioso.

Talvez o futuro do turismo de praia dependa menos da capacidade de atrair visitantes e mais da capacidade de preservar aquilo que tornou esses lugares especiais.

Porque a pergunta não é apenas se continuaremos frequentando as praias daqui a cem anos.

É se elas continuarão existindo da forma como as conhecemos hoje.

Afinal, quando olhamos para a Praia Grande, para a Guarita ou para a Prainha, costumamos imaginar que elas estarão sempre ali, exatamente como as vemos agora.

A história mostra que nem sempre é assim.

Mas nem todas as transformações que podem afetar o futuro do turismo de praia estão na areia, no avanço do mar ou na qualidade da água.

Algumas estão acontecendo dentro de consultórios médicos, laboratórios e até nas redes sociais.

E talvez sejam elas as mais surpreendentes.

 

Fontes: Futuro das praias — Nature Climate Change, INCA, JAMA Dermatology; https://ihu.unisinos.br/categorias/660201-mudancas-climaticas-quase-metade-das-praias-do-mundo-pode-sumir-ate-2100 ; https://ihu.unisinos.br/categorias/660201-mudancas-climaticas-quase-metade-das-praias-do-mundo-pode-sumir-ate-2100 ;

Foto ilustrativa: https://www.tetratech.com.br/wp-content/uploads/2024/08/AdobeStock_564054684-scaled.jpeg 




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