CONVERSANDO COM A HISTí“RIA: A trajetória do surf em Torres revisitada

9 de fevereiro de 2015

 No final do mês de janeiro, Seis convidados  se reuniram para contar casos de um esporte que tem grande ví­nculo com nossa cidade: o surf

 

 

Por Guile Rocha

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A noite de 29 de janeiro foi um momento para resgatar as memórias de um esporte que tem grande ví­nculo com nossa cidade: o surf. Foi no oitavo encontro do projeto ‘CONVERSANDO COM A HISTí“RIA’, que é promovido pela prefeitura de Torres na última quinta-feira de cada mês. Bem prestigiado por torrenses e veranistas,   o fórum  desta vez foi  mediado pelo ex-presidente da Associação dos Surfistas de Torres, Carlos Freitas (o CDV). Os convidados falaram sobre sua a trajetória no esporte e suas experiências vivenciadas nos mares de Torres e  mundo a fora.Após a abertura do evento pela prefeita Ní­lvia Pereira, o mediador CDV apresentou os convidados, e sugeriu que (em outro momento) fosse montada uma equipe para contar as histórias do finado Zeca Scheffer, desbravador de ondas grandes de nossa cidade e grande incentivador do surf.

 

 

MACACO: A realização de viver na praia

   

Foto do engenheiro Marco Antí´nio ‘Macaco’ surfando

 

O primeiro convidado a falar foi o engenheiro e professor aposentado Marco Antí´nio Machado,   popularmente conhecido Macaco.  Ele surfa desde 1970 até os dias de hoje, e foi um dos primeiros surfistas porto-alegrenses vindo para a cidade com o intuito de trabalhar e pegar ondas. "Me formei engenheiro e no outro dia comuniquei aos meus pais que iria morar em Torres. Meu pai disse que tudo bem, mas que a partir daquele momento ele não me daria mais sequer um centavo. Aceitei o desafio de me sustentar, e a partir daquele dia em que botei as coisas no carro e parti para Torres me senti uma pessoa realmente feliz, por poder surfar constantemente. Ao mesmo tempo, fui sendo mais aceito na sociedade daqui pela minha relação com o surf".

 Macaco ajudou a organizar a Federação Gaúcha de Surf e Skate, em 1979, e posteriormente foi um dos fundadores da Associação dos Surfistas de Torres (AST). Ele lembrou de um campeonato histórico que ajudou a organizar   em 1978 aqui na cidade  – com uma semana de janela aberta para garantir que o campeonato rolasse nas melhores condiçíµes. "E fomos brindados com altas ondas, tendo inclusive divulgação da mí­dia. Gostava de participar dos campeonatos, mas me realizava mais ainda participando da organização, achava aquela vibração de um campeonato com a galera reunida para prestigiar muito boa", revelou Macaco, lembrando ainda a importância da criação da AST, em 1983 . "O torrense não era muito notado no mar pelos surfistas de fora que vinham para Torres. Mas com a AST o pessoal criou atitude e começou a participar mais, se identificar com o surf. Logo vimos nomes como o Eduardo ‘Cupim’ Martins se destacando em campeonatos regionais, e o surfista nativo sendo respeitado pelos veranistas".

 

 

ALEXANDRE MENEZES: Surfista de alma

 

Alexandre Bayma após sessão de surf na Guarita

 

O segundo palestrante da noite foi um dos precursores do surf torrense: trata-se de Alexandre Bayma Menezes, hoje bancário mas eterno ‘soul surfer’, daqueles que acorda cedinho para marcar presença constante nas ondas dos Molhes. Morador de Torres, ele já desbravava nosso mar no final dos anos 60 – quando o surf era quase que uma exclusividade dos veranistas porto-alegrenses. "Naquele tempo Torres era como um balneário, e os locais parece que viviam apenas para servir os turistas no verão, em especial uma casta da burguesia da capital. E no surf não era diferente, havia um localismo as avessas: eram poucos torrenses (uns 3 ou 4) que se aventuravam com suas pranchas entre vários porto-alegrenses que ocupavam o mar (principalmente na Guarita). Depois, o tempo foi passando, as rixas diminuindo e todo mundo foi ficando amigo", conta Alexandre.

Para Alexandre, o surf tornou-se uma cultura adotada quase como uma religião, sentimento compartilhdo por diversos praticantes desse esporte. Ele – que por 8 anos foi tesoureiro da Associação dos Surfistas de Torres – lembrou de Breno Clézar, outro nome integrante da primeira geração de surfistas torrenses, e também citou Eduardo ‘Cupim’ Martins como o nome que alçou a cidade para um patamar mais competitivo nos campeonatos de surf. "Em 1983 já haviam vários surfistas de Torres dominando e foi criada a AST. Logo depois o Rodrigo ‘Pedra’ Dornelles aparecia em destaque também.   Mas eu, particularmente, sempre fui mais do lado do free surf, pouco competi. Surfo mais para aquecer a alma mesmo", finaliza o ‘casca grossa’ Alexandre Bayma Menezes.

 

 

FELIPE RAUPP: Ensinamentos que perduram na água

   

O professor de surf Felipe Raupp (d) em atividade

 

Uma referência nacional quando o assunto é escola de surf, o local Felipe Raupp tornou-se um dos nomes mais conhecidos do esporte aqui na cidade. Formado em educação fí­sica, ele é surfista nativo desde 1979. Possui curso de especialização em surf pela ISA (International Surf Association) e é – assim como Macaco –   um dos fundadores da AST. Além disso, foi o criador do Circuito Interno de Surf em Torres e da primeira escola de surf da região – há quase 30 anos."Falar de surf é falar da minha vida. í‰ falar de saúde, felicidade, auto estima. Queria ser um local nativo respeitado, e foi através do surf que consegui chegar lá. Hoje quero que meu filho tenha também o prazer de surfar e compartilhar com os amigos a cultura do surf e do esporte", destacou Felipe Raupp.

No ‘Conversando com a História’, Felipe Raupp ainda tirou do baú alguns causos interessantes do surf em Torres. Lembrou, por exemplo, do ‘Dia do Fim do Mundo’ que teria sido profetizado por Nostradamus para ocorrer no dia 11 de agosto de 1999. "O fim do mundo não aconteceu, mas a Praia da Cal teve um de seus dias de surf mais clássicos", disse, para diversão da plateia.   Ele recordou ainda do Pituca, um í­ndio que foi referência no surf torrense dos anos 70, famoso por se atirar nas ondas grandes. "Depois ele virou farmacêutico e até inventou um protetor solar, que vendia para os veranistas da cidade", disse Felipe, que ainda teceu vários elogios ao maior representante do surf torrense no mundo: Rodrigo ‘Pedra’ Dornelles.

Com 35 anos de ação sobre as ondas, Felipe Raupp falou sobre os primeiros campeonatos realizados pela AST. "Formamos a AST porque querí­amos puxar os limites através da competição, uma vontade de representar bem a cidade de Torres. Conseguimos umas apostilas (da Associação Catarinense de Surf) que indicavam os critérios para avaliação nos campeonatos . Fmos aprendendo melhor a julgar – o que contava desde o tamanho da onda até a força da manobra. Todo mês tinha campeonato, as premiaçíµes eram simples medalhas mas a gente tinha o prazer em competir". E para o hoje notório professor, muitas vidas na cidade foram balizadas em função do surf, um esporte que estabeleceu grande conexão com Torres nas últimas décadas.  "Fico feliz em perceber que tantas pessoas vinculadas com o surf hoje ocupam posiçíµes respeitadas na sociedade torrense e em outras cidades. Prova de que o preconceito comum no passado – de que o surfista era vagabundo e maconheiro – não procede".

 

 

CRISTINA CARDOSO: O surf feminino em Torres

   

A torrense Cristina Cejas surfando nos anos 80

 

íšnica presença feminina entre os palestrantes, a advogada Cristina Cardoso Aparecida Cejas é uma das mulheres pioneiras do surf em Torres, esporte que começou a praticar em 1985. " Além de mim, haviam outras três meninas que também pegavam onda aqui em Torres, observávamos as meninas de Porto Alegre (que já tinham mais a base) e também querí­amos surfar de pé. Fiquei chorando pro meu pai por um tempo, dizendo que queria muito uma prancha, até que ele me comprou uma (rosa ainda por cima!). Eu tinha uns 14 anos e ia surfar todos os dias que podia, só parava para almoçar e estudar".

Em 1988, Cristina foi embora para Porto Alegre fazer o segundo grau, e conta que foi um baque ficar longe do mar. "Mas todo o final de semana eu voltava para Torres, sempre me mantendo no surf. Em 1995 me casei, e meu marido começou a surfar por contágio. Mais tarde decidimos fixar residência em Torres novamente, e então finalmente voltei a estar bem perto das ondas", relembra a advogada. Para ela, o surf é uma terapia e uma atividade que inspira bastante concentração: "O surf é mais que um esporte, é um estado de espí­rito que integra as pessoas, une as energias com o mar".

No momento de descontração, Cristina relembrou de uma engraçada   história que viveu. "Eu ia cruzando o canal junto aos Molhes para surfar quando, de repente, fui literalmente fisgada pelo anzol de um pescador. Ai gritei, pedi para o pescador me ajudar a tirar o anzol. Mas o desaforado disse ‘Ah não, peixão igual a este eu nunca pesquei’ (risos). Depois ele me ajudou e tudo ficou tranquilo", recordou Cristina, dizendo ainda que sempre foi tratada com respeito pelos surfistas homens dentro da água. "Nunca levei uma cantada na água, e ainda por cima os surfistas ainda me dão passagem quando estou na onda. í‰ a vantagem de ser mulher (risos)". Finalizando, a advogada disse que novos incentivos deveriam ser criados para a participação de mais mulheres no mundo do surf.

 

 

OSCAR MARTINS DE LIMA: A primeira prancha do RS

 

Oscar Martins de Lima é outro personagem que há decadas faz parte da história de Torres. O engenheiro de 78 anos hoje é morador da cidade, mas foi veranista de Torres desde a infância (nos anos 40), quando vinha de Porto Alegre para cá com a famí­lia. "Só chegar até Torres já era uma aventura, cerca de 100 quilí´metros tí­nhamos que vir pela praia, e somente quando o mar estava baixo. Na época a cidade devia ter entre 300 e 400 habitantes".

E além de antigo participante da rotina de nossa cidade, Oscar Martins de Lima também tem uma participação mais que especial na história do surf no RS: ele foi o criador da primeira prancha de surf que se tem notí­cia no estado.  "Nos anos 50,   í­amos para o mar e fazí­amos jacaré numa tábua de pinho, era nosso jeito de pegar as ondas. A palavra surf – que significa escorregar – ainda não era nem utilizada por aqui, mas ouvimos alguma coisa que no Havaí­ praticavam jacaré em pé, numa prancha grande. Começamos a fuçar isso e, numa revista argentina, vimos uma reportagem sobre estas pranchas. Dai decidimos fazer uma para nos divertir no mar torrense. Tí­nhamos uma noção das dimensíµes e espessura que a prancha devia ter – pelo que era passado na revista – mas no geral fizemos do nosso jeito, com madeira compensada e uma leve quilha por baixo. Era uma prancha grande, feita para duas pessoas carregarem. Ao entrar na água, porém, a dificuldade era manobrar a prancha (pois a quilha era muito leve)".

Mas engana-se quem pensa que Oscar criou a prancha com qualquer intenção de obter prestí­gio ou fama. Na época, ele queria apenas se divertir sobre as ondas do mar, como os havaianos faziam. "Depois, fui morar no Rio de Janeiro e, no começo dos anos 60, começavam a aparecer as primeiras pranchas oficiais, e a partir dai o surf começou a ficar mais popular". Apesar de sua relação histórica com o surf, o engenheiro não seguiu praticando o esporte. Entretanto,  ele valoriza a cultura por trás do esporte e pensa que o surf pode ser uma forma de alavancar o turismo na cidade. " O turismo daqui precisa urgentemente se profissionalizar para ao menos se equiparar com o de Gramado e Canela. Torres deveria valorizar os turistas, veranistas e moradores , e seus interesses que coincidem ou não", finalizou Oscar Martins de Lima, que também é integrante da Fundest (Fundação para o Desenvolvimento Sustentável de Torres).

   

Marco Antonio Silva , Jorge Gerdau Johannpeter e Roberto Bins em Torres –   1968 (Acervo Caldas Júnior)

 

‘PEDRA’: O grande surfista da história gaúcha

 

O surfista profissional Rodrigo Dornelles Paz, o Pedra, foi o convidado mais festejado desta edição do "Conversando com a História". Ele iniciou no esporte aos 12 anos, se profissionalizou aos 18 e pouco tempo depois já tornou-se campeão mundial amador. Foi campeão gaúcho em todas as categorias e o primeiro surfista do RS a competir no WCT, a elite do surf mundial, sendo que em 2007  foi o melhor entre todos os surfista brasileiros.

Pedra contou um pouco sobre sua relação com Torres, cidade na qual veio morar quando tinha apenas 3 anos de idade. Ele diz que começou a pegar ondas ainda quando criança, de planonda (as velhas pranchas de isopor) e depois tentou surfar de prancha pela primeira vez numa trip em Laguna. "Mas a prancha era bem grossa e eu magrinho.Lembro que me quebrei todo por lá e fiquei meio traumatizado" relembra Pedra, que depois passou para um Morey bug (bodyboard) pois pensava que assim não iria se machucar no mar. "Mas não durou muito tempo, um dia peguei uma prancha emprestada e desci minha primeira onda no meio do Mampituba, e nunca mais quis parar. Dai, depois   de um ano herdei a prancha velha do meu irmão Fogo, que muito me incentivou no surf".

Apesar do contato constante com o mar, Pedra revelou que seu sonho de criança não era ser surfista,mas sim jogador de futebol pelo Internacional. "Mas eu ia correr na beira do mar e (na época) os campeonatos de surf estavam bombando, sempre tinha algum rolando. E eu,que sempre fui competitivo, simpatizei muito com aquele clima de campeonatos. Em 1983 eu decidi que era aquilo que eu queria na minha vida, larguei de mão o futebol e comecei a me focar no surf", disse Pedra, ressaltando que os bons resultados no surf começaram a aparecer muito em decorrência do apoio da famí­lia e dos amigos, que acreditavam no potencial do então guri Pedra.

 "Uma vez eu vi uma revista gringa de surf falando dos top-16 do mundial de surf, e o Tuca Gianotti (surfista gaúcho, ex-presidente da Federação Gaúcha de Surf) que era mais velho que eu, dizia que eu tinha condição de chegar lá. Aquilo ficou na minha cabeça, e eu fazia de tudo para que meu crescimento no surf acontecesse. Meu pai foi patrocinador e empresário no começo, minha mãe também estava sempre ajudando. Ganhei o gaúcho, depois o mundial amador (que foi um marco em minha carreira). Eu só me preocupava em estar nos campeonatos e conseguir os melhores resultados, e não em receber dinheiro a parti do surf", destacou Rodrigo Dornelles.

E a partir de foco, determinação e bons resultados, em alguns anos Pedra tornou-se o mais competitivo dos surfistas gaúchos. Em 2001, classificou-se pela primeira vez ao WCT, a primeira divisão do surf mundial, e pertenceu a elite do esporte  também em 2007 e 2008, ganhando notoriedade internacional. "Tive a sorte de sempre ter pessoas que me ajudaram a crescer no surf, e é muito bom poder ter representado Torres por onde eu passei neste mundo. Amo esta cidade, é um paraí­so e agradeço o reconhecimento", disse um emocionado Pedra, quase as lágrimas, em meio aos aplausos gerais do público.

 

Rodrigo ‘Pedra’ Dornelles entocado num tubo na Indonésia (FOTO: Pedro Felizardo)

 

OUTRAS MEMí“RIAS DO SURF TORRENSE

 

MAIOR ONDA: Segundo o surfista profissional   Rodrigo ‘Pedra’ Dornelles, a melhor onda que ele já surfou não foi na famosa Teahupoo (pico no Taiti) masi sim aqui em Torres mesmo: foi uma poderosa direita na Ilha dos Lobos. "Entrou a ondulação certa, perfeita e difí­cil de acontecer, pois a onda na Ilha geralmente entra para a esquerda, e não para a direita".

 

LOCALISMO NA CAL:   O historiador Leo Gedeon (no mundo do surf conhecido como Balaka)lembrou do localismo forte que acontecia na Praia da Cal nos anos 80 e 90, quando os surfistas nativos pouco espaço deixavam para os ‘haoles’.Felipe Raupp disse que,de certa forma, sentia orgulho do localismo da Cal . "Deve-se entender a questão financeira não privilegiada das pessoas que lá surfavam, e que por isso acabavam sendo menosprezadas. Foi um pessoal que com o surf, com o esporte (e também a base da força), conseguiram se impor. Mas hoje o localismo na Cal já não é tão forte, tem que haver uma sintonia entre os surfistas: uma cultura de paz, mas sem perder o respeito".

 

O MAIOR EVENTO: Foi também lembrado sobre a etapa do WQS que ocorreu aqui em Torres em março de 2004. Este foi o único campeonato do circuito mundial a acontecer em Torres, trazendo para cá surfistas renomados.

 

OUTROS TEMPOS: O jornalista Nelson Adams contou que, nos anos 60 e 70, não era hábito dos veranistas ir a praia de tarde. "O pessoal ia pra Guarita surfar, quem ia a praia de tarde eram as empregadas".

 

 

 


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