ALCOOLISMO: Um caminho que pode ser alterado

5 de dezembro de 2014

 

 Dia 9 de dezembro comemora-se no Brasil o dia do alcoólico recuperado. Uma data festiva para todas as pessoas que sofreram com os conflitos oriundos do alcoolismo e que conseguiram se livrar da dependência da bebida.

 

 

 

Por Maiara Raupp

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O álcool é uma droga lí­cita e, por ser de fácil acesso, é considerada a mais vendida e a que mais afeta a população mundial. Há uma grande variedade de bebidas alcoólicas espalhadas pelo mundo, fazendo do álcool a substância psicoativa  mais popular do planeta. Obtido por fermentação ou destilação da glicose presente em cereais, raí­zes e frutas, o etanol (ou álcool etí­lico) é consumido exclusivamente por via oral. O Brasil detém o primeiro lugar do mundo no consumo de destilados de  cachaça  e é o quinto maior produtor de  cerveja. Só a Ambev, produz 35 milhíµes de garrafas de cerveja por dia.

O álcool é a  droga  preferida dos brasileiros (68,7% do total de acordo com o IBGE), seguido pelo tabaco, maconha, cola, ansiolí­ticos, cocaí­na, xaropes e estimulantes. No Paí­s, 90% das internaçíµes em hospitais psiquiátricos por dependência de drogas acontecem devido ao álcool. O alcoolismo é a terceira doença que  mais mata no mundo. Além disso, tem relação com 350 doenças (fí­sicas e psiquiátricas) e torna dependentes da droga  um a cada dez usuários. Hoje no Brasil, quase seis milhíµes de pessoas são alcoólatras.

O alcoolismo é um problema de  Saúde Pública no Brasil, tendo como consequências não só o prejuí­zo í  saúde do alcoolista, como também com repercussíµes sociais. O álcool é responsável pela maioria dos acidentes de trânsito no Paí­s e no mundo, em cerca de 70% das ocorrências de violência contra a mulher houve consumo prévio de álcool e um número expressivo de acidentes de trabalho também tem relação com o consumo de bebidas alcoólicas.

Pesquisas mostram que o efeito do álcool no cérebro afeta as regiíµes responsáveis por habilidades como memória, aprendizado, autocontrole e principalmente a motivação. O álcool é a droga que  mais  detona  o corpo  (tanto quanto a cocaí­na e o craque), a que mais faz  ví­timas e é a mais consumida entre os  jovens brasileiros.

 

ílcool é a droga que mais mata

 

A cada ano cerca de oito mil pessoas morrem em decorrência do uso de drogas lí­citas e ilí­citas no Brasil. Um estudo elaborado pela Confederação Nacional dos Municí­pios (CNM) aponta que, entre 2006 e 2010, foram contabilizados 40,6 mil óbitos causados por substâncias psicoativas. O álcool aparece na primeira colocação entre as causas, sendo responsável por 85% dessas mortes.

Para elaborar o estudo, a CNM coletou dados do Sistema de Informaçíµes sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, que reúne e consolida os óbitos no território brasileiro conforme os locais da ocorrência e de residência do indiví­duo. De acordo com o levantamento, as 40.692 pessoas morreram no Brasil ví­timas do uso de substâncias como álcool, fumo e cocaí­na. E os dados podem estar subestimados, conforme a própria confederação, devido í  complexidade de registros no SIM e pelo fato de não serem contabilizadas mortes causadas indiretamente pelo uso de drogas (como acidentes de trânsito e doenças crí´nicas). No estudo foram contabilizadas mortes em decorrência de envenenamento (intoxicação), transtornos mentais e comportamentais.

Quando se fala em drogas, substâncias ilí­citas como cocaí­na e crack costumam ser as mais lembradas. No entanto, segundo o levantamento da CNM, elas são responsáveis por uma parcela mí­nima das mortes causadas diretamente pelo seu consumo. Juntos, o álcool e o fumo, drogas vendidas e consumidas legalmente, representam 96% dos mais de 40 mil óbitos contabilizados nos últimos anos. Se esse número já é considerado preocupante, é preciso lembrar que ele representa apenas uma parcela dos óbitos em consequências do uso de drogas no Brasil. O estudo levou em consideração somente as mortes em que o consumo de substâncias psicoativas foi apontado como causa direta. Ou seja, existe um contingente ainda maior de óbitos não contabilizados que podem entrar nessa relação.

O Brasil é o quinto paí­s em mortes pelo consumo de álcool nas Américas. A cada 100 mil mortes, 12,2 poderiam ser evitadas se não houvesse consumo de álcool, mostra uma pesquisa realizada pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Por ano, o álcool aparece na causa de morte de 80 mil pessoas nas Américas. A maior taxa é a de El Salvador, com 27,4/100 mil mortes, e a mais baixa é a da Colí´mbia, com 1,8. O estudo foi realizado entre 2007 e 2009 e os resultados foram publicados na revista Addiction em janeiro de 2014.

 

 

 

Ví­cio começa cedo

 

 Os jovens estão bebendo mais e cada vez mais cedo, o que aumenta o risco de boa parte desta juventude desenvolver o alcoolismo. Esta equação se repete em praticamente todo o mundo, inclusive no Brasil, apesar de as pesquisas sobre o tema ainda serem bem escassas no Paí­s.

O último Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas, realizado pelo Centro Brasileiro de Informaçíµes sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), revelou que o consumo de álcool por adolescentes de 12 a 17 anos já atinge 54% dos entrevistados e desses, 7% já apresentam dependência. A pesquisa mostrou ainda que entre jovens de 18 a 24 anos, 78% já fizeram uso da substância e 19% deles são dependentes. Segundo recente estudo divulgado pela Organização das Naçíµes Unidas (ONU), em comparação com os paí­ses da América Latina, o Brasil aparece em terceiro lugar no consumo de álcool entre os adolescentes. A análise foi feita com estudantes do ensino médio e incluiu 347.771 meninos e meninas, de 14 a 17 anos, do Brasil, da Argentina, da Bolí­via, do Chile, do Equador, do Peru, do Uruguai, da Colí´mbia e do Paraguai. Entre os brasileiros, 48% admitiu consumir álcool.

 

ílcool X trabalho

 

Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam que o alcoolismo é o principal motivo de pedidos de auxí­lio-doença por transtornos mentais e comportamentais por uso de substância psicoativa. O número de pessoas que precisaram parar de trabalhar e pediram o auxí­lio devido ao uso abusivo do álcool teve um aumento de 19% nos últimos quatro anos, ao passar de 12.055, em 2009, para 14.420, em 2013.

Os dados mostram que os auxí­lios-doença concedidos as pessoas com transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de drogas passaram de 143,4 mil. Cocaí­na é a segunda droga responsável pelos auxí­lios concedidos (8.541), seguido de uso de maconha e haxixe (312) e alucinógenos (165).

 

 

O recomeço

 

A falta do álcool provoca uma série de sintomas graves, como elevação da pressão arterial, tremores, enjoo, ví´mito e, em alguns pacientes, até mesmo convulsão. Esse é o quadro da sí­ndrome de abstinência. O consumo contí­nuo e abusivo leva a uma tolerância cada vez maior do usuário í  bebida. O corpo acostuma-se com o álcool. Ele resiste mais e, para obter o efeito que tinha no começo com uma lata de cerveja, precisará tomar cinco.

O tratamento da doença, que atinge cerca de 5,8 milhíµes de pessoas no Paí­s, segundo o Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, não é fácil: dura pelo menos um ano e meio em sua fase mais intensiva e tem í­ndice de recaí­da de cerca de 50% nos primeiros 12 meses.

Apesar de ser uma doença que ainda não tem cura, há controle por meio do tratamento. O tratamento da doença pode ser feita com ou sem internação, a depender do estágio da patologia.

Para recuperar os indiví­duos que consomem abusivamente o álcool existem os AA™s os chamados Alcoólicos Aní´nimos, que são comunidades de voluntários, de homens e mulheres, que se reúnem para alcançar e manter a sobriedade através da abstinência total de ingestão de bebidas alcoólicas.

Uma das maiores dificuldades de tratamento dos alcoólatras é a negação da condição entre os doentes. Nesse processo, a famí­lia e amigos têm um papel essencial.

 

 

Depoimentos de alcoólatras recuperados

 

 

E o 9 de dezembro é um dia especial. Quem já enfrentou o alcoolismo, ou conhece alguém que já superou a dependência, sabe que a recuperação deve ser comemorada todos os dias. Mas ainda há muitos que estão na luta contra o alcoolismo. Para ajudar os que sofrem desta doença, alguns ex-alcoolistas contam suas histórias de vidas para mostrar que vencer o alcoolismo é possí­vel. Confira alguns depoimentos de alcoólatras recuperados:

 

– Há 24 anos sem beber uma gota de álcool, o vendedor autí´nomo João* acredita que largar o ví­cio sem ajuda profissional é praticamente impossí­vel e afirma que não existe cura para a doença. A famí­lia é muito importante, mas sozinha não dá conta se não houver apoio profissional. A questão não é moral, é bioquí­mica, de estrutura e só com muito tratamento, pondera ele. Procurei os Alcoólicos Aní´nimos e vou lá até hoje, faço a manutenção, porque preciso.  

 

– Uma das coisas que me assustou e me fez querer procurar tratamento foi como eu percebi que meu corpo e saúde estavam sendo prejudicados. O médico falou que talvez não conseguisse engravidar. Fiquei com medo e comecei a repensar o que eu estava fazendo comigo, conta Elisa*, em processo de recuperação há cinco anos. Ela procurou ajuda médica e psiquiátrica e, algum tempo depois, foi para as reuniíµes dos Alcoólicos Aní´nimos.

 

– Fernando*, que está sem beber faz 19 anos, conta que evitou recaí­das ocupando seu tempo. Quando eu saí­a do trabalho sempre tinha vontade de encontrar os amigos no bar. Ficar em casa não ajudava. Comecei a me inscrever em aulas, ir ao cinema, fazer cursos, academia¦ qualquer coisa que me tirasse de casa e ocupasse meu tempo. Para ele, esse processo foi muito importante. Tenho vários interesses e me divirto muito. Não preciso mais beber, diz.

 

– Comecei a beber com 12 anos de idade, cresci em uma famí­lia alcoólica logo em seguida saí­ da minha casa, fiquei vivendo pelas ruas. Depois de um tempo me casei, mas o ví­cio continuava comigo. Eu bebia 24 horas por dia. Perdi o amor dos meus filhos e a importância de ter uma famí­lia. Foi quando encontrei o CRAS que me orientou e me encaminhou para o CAPS. Hoje faz três meses que estou recuperada do vicio do álcool e vivendo o real da vida. Recuperei minha famí­lia e aos poucos ganhando de volta o amor dos meus filhos, isso graças ao CAPS que está me apoiando e acreditando que todos que estão aqui podem se recuperar desse vicio, disse Maria*.

 

*os entrevistados preferiram não se identificar com seus nomes reais

 

 

 

 


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