Por Fausto Junior
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Os trabalhadores de transporte rodoviário de cargas no Brasil podem representar a prova cabal da confusão que governos – passados e atuais – fazem entre o que é público e o privado. í‰ que, além de ser uma categoria produtiva, ela têm a incumbência direta de distribuir pela nação as necessidades do dia-a-dia de todos os brasileiros. Desde os alimentos que consumimos até a matéria prima utilizada para produção industrial dependem do trabalho do transporte rodoviário, já que o Brasil optou por ter um modelo de transporte praticamente dependente das rodovias. Não temos competentes redes ferroviárias, não temos competentes redes hidroviárias, muito menos temos competentes aeroportos para que transportes sejam feitos pelo ar. E os caminhoneiros sofrem, portanto, na própria carne, a incompetência da falta de planejamento dos governos brasileiros. Trafegam em estradas esburacadas, são obrigados a se submeter í s regras que os impedem de produzir mais, não tem permissão de fazer seguros coletivos de seus veículos, dentre outras intervençíµes das leis corporativistas estatais de nosso Brasil.
Quando o governo age “ como parece que está tentando fazer agora, com a greve – age como se comporta a ave chupim. Coloca vários ovos em ninhos alheios e transfere a responsabilidade para as costas das transportadoras, das empresas que produzem, dos pedágios dentre outros. Uma espécie de alívio nos bolsos da categoria, pago por outrem. O governo age quase como agiota, oferecendo dinheiro para doentes que necessitam de tratamento e colocando os juros dos empréstimos, ainda, nas costas do sistema produtivo. Governos insistem em não agir naquilo que é de sua competência. Compram categorias com o dinheiro de outras categorias e mantêm o establishment, ou seja, mantêm as mordomias estatais, os impostos achacantes que nossa nação mantém. Enquanto issojoga a briga para outro lado, como se não fosse somente do governo a total culpa do problema revelado pelos transportadores rodoviários de carga.
Os caminhoneiros pedem uma ação institucional para a categoria. Pedem que o diesel, combustível de seus instrumentos de trabalho, não seja tão caro como está no Brasil (e subindo). Conseguiram ao menos a promessa do governo de congelar o preço do diesel por uns meses. Mas não é o suficiente. Uma ação institucional que seria obrigação de qualquer governo sério, principalmente se tratando de uma categoria que influencia todo o sistema de produção e de consumo do país. Mas o governo diz que não pode abaixar o preço do óleo diesel, o que é mais uma mentira. O governo pode, sim, baixar “ e muito – o preço do diesel. Pode, por exemplo, zerar o imposto nas bombas e na produção, o que seria um golaço para qualquer presidente. O sistema produtivo seria desonerado, tendo vantagens diretas no bolso do trabalhador “ o caminhoneiro “ e, ao mesmo tempo, agiria justamente para forçar que os preços baixem para o cidadão e as empresas fiquem mais competitivas no mercado internacional. Todos nós e todas as empresas do Brasil dependem do preço cobrado por fretes. Baratear de forma institucional o combustível deste frete é golaço.
Mas o governo não quer abrir mão de receita. Nunca quer. Ao contrário, nos últimos anos, tem colocado o óleo diesel e a produção de veículos com este combustível num balaio igual aos de outros veículos. Antigamente, não se podiam fabricar carros a diesel no Brasil: somente caminhíµes. Hoje, temos caminhonetas í diesel trafegando nos bairros nobres das cidades, emitindo fumaça para todos os lados, no mesmo lugar onde fumante não pode satisfazer seu vício pelo mesmo motivo: fumaça no nariz do outro. Caminhonetes da FEPAM e outros órgãos que se dizem ambientais são equipadas com motor a diesel. E fiscais chegam, numa fiscalização de dano ambiental, fazendo fumaça para deixar qualquer tatuíra ou coruja tontos de tanta poluição.
O movimento dos caminhoneiros pode ser a ponta de um iceberg de indignação dos brasileiros para com as incongruências públicas. Tomara que os rebeldes aproveitem mostrem para os governantes que eles querem somente justiça com seu trabalho. E que as açíµes institucionais necessárias não sejam uma compra de categoria como parece se esboçar nas relaçíµes entre os rebelados e o governo do Brasil, pelo menos na visão da estratégia oficial.


