Educação Ambiental em Torres e o PROJETO CARANGUEJO-FANTASMA

28 de março de 2015

 

Em Torres, o cidadão pode – e tem o hábito – de reclamar em diversos contextos. Porém, algo que poucos ousariam discordar é que, como diria Jorge Benjor, nosso municí­pio é "abençoado por Deus e bonito por natureza", e portanto um lugar especial para a propagação e o estudo da educação ambiental.

 

 

Por Guile Rocha

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Para a UNESCO (1987), a educação ambiental é "um processo permanente no qual os indiví­duos e a comunidade tomam consciência do seu meio ambiente e adquirem conhecimentos, habilidades, experiências, valores e a determinação que os tornam capazes de agir, individual ou coletivamente, na busca de soluçíµes para os problemas ambientais, presentes e futuros.

 E tendo esta premissa como base, percebemos que Torres é berço de várias iniciativas de educação ambiental, projetos que partem tanto do poder público como da sociedade civil organizada, que ocorrem dentro de salas de aula ou no contato direto com o ambiente externo natural. Mas em comum estão suas propostas, que buscam estabelecer uma sintonia na relação entre o ser humano e o meio ambiente, além de destacar a necessidade da preservação de nossa abençoada natureza.

 

Projeto Caranguejo Fantasma

 

Bastante citado no jornal A FOLHA, o Projeto Praia Limpa é um dos mais bem divulgados trabalhos de educação ambiental na cidade, focando na importância da manutenção de nossas praias limpas, realizando palestras (tanto para alunos da rede escolar quanto para adultos) e trabalho voluntário de limpeza de nossa orla.  Mas outra interessante iniciativa de educação ambiental que se perpetua em Torres é o Projeto Caranguejo-Fantasma, que tem como protagonista um pequeno crustáceo branquinho, que habita todo o litoral brasileiro e tem a fama de lixeiro das praias. Formatado muitos anos atrás pelo professor de biologia Benedito Salvador Ataguile, do Centro Educacional São Domingos (hoje Rede Sagrado – São Domingos), o projeto tem continuidade atualmente por uma equipe multidisciplinar de profissionais, coordenada pelo biólogo Francis dos Santos Custódio, ex-aluno e monitor do professor ‘Benê’   .

 Trata-se de uma atividade extraclasse e monitorada, realizada com estudantes em idade escolar, que by browseonline">oferece trilhas ecológicas por diversos pontos de Torres e região – desde o Parque da Guarita até as cachoeiras da Serra Geral. Porém, o carro chefe do projeto é a busca pelo Caranguejo-Fantasma, uma aventura noturna que acontece nas areias da Praia Grande. " Este projeto visa demonstrar como é possí­vel aliar conteúdos do currí­culo escolar í s questíµes ambientais de forma prática e prazerosa. Além disso, busca despertar nos alunos a sensibilidade com a natureza através da observação (in loco), o que desperta neles um espí­rito investigativo, caracterí­stica que está cada vez menos presente nos ambientes escolares. ", explica o biólogo Francis dos Santos Custódio.

 

Uma exploração noturna

 

E a busca pelos caranguejos-fantasmas é uma verdadeira exploração: cada aluno leva sua lanterna, e a turma – acompanhada dos professores e dos profissionais do projeto – é dividida em grupos, que vão investigar a presença dos sorrateiros bichinhos. "O primeiros contatos dos alunos é com as tocas dos caranguejos na areia: ao redor, percebe-se as pegadas do crustáceo", explica Francis, que continua. "Quando encontra-se um indiví­duo ocorre uma festa geral, excitação com o momento. Então o desafio é coletar o espécime: ele é esbranquiçado como a areia (por isso a alcunha de ‘fantasma’) muito rápido, difí­cil de pegar, tem que ser encurralar para tal. Por isso exige o trabalho em equipe. Quando finalmente conseguimos coletar um caranguejo-fantasma é uma vitória. Então, mostramos aos alunos a morfologia externa do animal, as evidências de que são macho ou fêmea (que é algo facilmente perceptí­vel na cavidade abdominal dos caranguejos). Vale ressaltar que nunca foi morto um espécime do caranguejo nas nossas buscas exploratórias realizadas com as escolas", reforça o biólogo.

A atividade envolve também os alunos com o microambiente das dunas da Praia Grande: desde a vegetação caracterí­stica do local até as corujas-buraqueiras, aves migratórias e animais únicos da região (como a lagartixa das dunas e o pequeno roedor tuco-tuco). Elementos da fauna e da flora que também são – alguns mais facilmente que outros – observados pelos interessados estudantes durante as buscas pelo caranguejo-fantasma. "Em uma das saí­das encontramos um leão marinho morto na orla, o que pode, inicialmente,   ser uma cena um pouco chocante para os alunos. Mas a morte faz parte de um ciclo na natureza, deve ser encarado como algo natural. E o interessante, neste caso, é que os próprios caranguejos-fantasma estavam comendo a carcaça do leão marinho morto, demonstrando aos alunos o importante papel que estes crustáceos desempenham como lixeiros das praias, auxiliando na decomposição da matéria orgânica", explica Francis.

 

Conhecer para by browseonline">preservar

 

 

FOTO: Francis e o professor Benedito

 

 

Há cerca de 10 anos Francis Custódio realiza a atividade de busca pelo Caranguejo-Fantasma, sendo que no começo atuava como monitor do Professor Benedito Ataguile – uma de suas principais inspiraçíµes para seguir a carreira de biólogo. "Hoje dou continuidade ao trabalho iniciado pelo Benê, que também acompanha algumas das buscas que fazemos com os alunos (além de continuar em atuação na Rede Sagrado – São Domingos)", destaca o Francis que continua: "Atendemos escolas de várias cidades, principalmente da serra gaúcha, litoral e região metropolitana de Porto Alegre. Isso é interessante pois os estudantes visualizam o ecossistema daqui e conseguem correlacionar com os ecossistemas de suas regiíµes, buscar as semelhanças e diferenças".

O biólogo e realizador do Projeto Caranguejo-Fantasma ressalta a importância das trilhas, para que os alunos "conheçam e harmonizem com a natureza que nos rodeia numa verdadeira sala de aula ao ar livre". Francis  ainda destaca o caráter único de Torres pela sua diversidade de ambientes naturais, marcada por diversos ecótonos, (áreas de transição ambiental). "Temos uma grande concentração de ecossistemas em um área relativamente pequena na planí­cie costeira: são ambientes de dunas, de rio, de mangue, mar, morros, ilha, lagoas, Serra Geral, Mata Atlântida com seus ambientes bem distintos (restinga, mata paludosa, floresta ombrófila densa). E cada um destes ecossistemas possui uma rica e diversa fauna e flora".

Finalizando, Francis indica que o principal objetivo do Projeto Caranguejo Fantasma e das trilhas é aliar os conteúdos de sala de aula com a experiência externa na natureza. "Isso é importante para o aluno, que leva um aprendizado real para sua vida. A educação ambiental deve basear-se na ideia de conhecer para preservar, não ficar preso a simples teoria, pois a partir do contato real com a natureza a sensibilidade fica muito maior. Além disso, os alunos captam essas noçíµes e passam o que aprende para os parentes, para os amigos. E a ideia da preservação do meio ambiente assim pode ir se perpetuando", conclui o biólogo.


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