Necessidade de reforma geral de tributos éinadiável

20 de agosto de 2013

 

*Por Raul Haidar  

 

O conceito de Justiça Tributária é muito simples. Trata-se apenas de dar a cada um o que é seu, em obediência í s normas reguladoras do sistema tributário nacional. Suas regras máximas estão fixadas na Constituição, complementadas pelo Código Tributário Nacional e reguladas pela legislação aplicável em cada ní­vel de poder.

No relacionamento entre fisco e contribuinte as duas partes devem receber o que lhes cabe. Cada um de nós, contribuintes, temos o dever de entregar aos poderes constituí­dos uma parte do que temos “ rendimentos ou patrimí´nio “ para recebermos serviços que nos permitam viver na sociedade que merecemos.

Todos esses serviços destinam-se, conforma a Constituição Federal, a: Iinstituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercí­cio dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pací­fica das controvérsias.

Mas o nosso sistema tributário não viabiliza tais objetivos. A legislação tributária de nosso paí­s já chegou ao máximo dos absurdos, ultrapassando todos os limites do bom senso. Não existe mais conserto ou remédio para o que ainda vigora em todos os ní­veis de governo. Nossa carga tributária é de tal forma desorganizada, que sequer há estatí­sticas ou registros confiáveis.

Entidades representativas dos empresários exibem vistoso painel eletrí´nico com o tí­tulo de impostí´metro, onde se registra de minuto a minuto os números que indicariam valores arrecadados. De outro lado, a associação de servidores públicos criou outro aparato, igualmente vistoso, apelidado de sonegí´metro, onde estariam registrados os valores que os contribuintes estariam surrupiando do tesouro.

Não parece que qualquer dessas iniciativas tenha resultado maior que chamar a atenção do público, a indicar apenas uma espécie de marketing. Se o ní­vel de sonegação divulgado for realmente de mais de R$ 400 bilhíµes por ano como já se divulgou, a carga tributária do paí­s seria de mais de 50% do PIB, não de menos de 40%. O pagamento desse volume de tributos nos transformaria a todos em escravos.

 

Todos são iguais?

                                                                     

Voltando ao conceito de Justiça Tributária: temos que dar ao Estado o que é dele, não mais do que isso. Tal valor deve corresponder ao que se emprega no atendimento do bem comum: saúde, educação, segurança e atendimento das estruturas de uma sociedade democrática.

Numa sociedade democrática, o poder emana do povo. O Estado não se destina í  manutenção de privilégios dos ocupantes dos cargos públicos. Os membros de todos os poderes “ Legislativo, Executivo e Judiciário “ são servidores públicos, ainda que exerçam cargos de autoridade. Não mandam no paí­s, mas apenas exercem atos limitados pela lei.

Para que tenhamos uma visão mais precisa desse conceito, podemos recorrer í s palavras do então ministro Eros Roberto Grau: Meu ofí­cio não é mais importante que o do jardineiro ou daquele que cuida da saúde das pessoas.. Ou seja: a igualdade de todos perante a lei não autoriza que ninguém se julgue mais importante que outrem, ainda que o cargo que eventualmente ocupe o seja.

Ora, se o Estado deve receber o que lhe pertence, não é razoável que a carga tributária seja desproporcional í  capacidade contributiva, nem que possa apresentar indí­cios de confisco. Observem-se, a respeito, as disposiçíµes constitucionais (CF, artigos 37 e 170). O contribuinte, pessoa fí­sica ou jurí­dica, deve pagar tributos, mas deve manter em seu poder parte da riqueza que possui ou produz, de forma a lhe permitir novos investimentos. Se alguém recebe rendimento que lhe possibilita apenas sobreviver, sem que nada ou quase nada lhe reste após o pagamento dos tributos, não é cidadão, mas escravo.

 

Dos lucros a boa gestão

 

De igual forma, as pessoas jurí­dicas não devem ser castigadas pelos seus lucros, pois,   num sistema capitalista, são os lucros que justificam os investimentos e movimentam a economia. Sem lucros, o paí­s não se desenvolve.

Quando os nossos governantes anunciam que o poder público vai fazer grandes investimentos, não podemos ignorar que os recursos foram gerados pela sociedade ou serão por ela suportados em qualquer circunstância, onerando-a pesadamente quando as obras forem financiadas a longo prazo.

Finalmente, não existe Justiça Tributária se o resultado da arrecadação não for administrado com seriedade. Não basta que o gestor público deixe de cometer desvios, deixe de roubar. Precisamos que a aplicação dos tributos seja feita com sabedoria, dando-se prioridade ao que realmente importa. Quando um prefeito, por exemplo, aplica as verbas municipais em festas inúteis, em obras desnecessárias, em salários de desocupados, assume a postura de um meliante, pois desvia recursos que são do povo. Tal situação se aplica a todos os ní­veis de governo.

 

Diante de tudo isso, vemo-nos diante da necessidade de uma ampla reforma tributária e fiscal.   Para tanto, será necessário, em breve, a convocação de nova constituinte, uma vez que a Constituiçãode 88 já está totalmente  descaracterizada com a enorme quantidade de remendos que recebeu (a tí­tulo de emendas).

Também já passou da hora de termos um Código de Defesa do Contribuinte que garanta os direitos dos pagadores de impostos.

Nessa ampla reforma, teremos que dar também destaque especial í  necessidade de garantir mecanismos de estabilidade para as regras tributárias que nos regem. Evitarí­amos, assim, que uma Ministra do STF fosse obrigada a fazer um desabafo surpreendente: Neste paí­s, nunca se sabe quanto tem que se pagar de impostos. E isso causa infelicidade nos cidadãos e atrapalha o crescimento." ( Ellen Gracie, 12/11/2010, do XXI Simpósio Nacional de Estudos Tributários).

Se a insegurança no pagamento de impostos causa infelicidade nos cidadãos e atrapalha o crescimento , todos nós temos que assumir o compromisso de desenvolver todos os esforços de que somos capazes para mudar essa situação.

 

 

*jornalista e advogado tributarista, ex-presidente do Tribunal de í‰tica e Disciplina da OAB-


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