O í­ndio no século XXI: Entre tradições e modernidade (parte 1)

11 de julho de 2011

Por Guilherme Rocha

 

       

                      Em muitos extratos da nossa sociedade e em pleno século XXI, muita gente não percebe (ou ignora) a enorme diversidade de povos indí­genas que se espalham pelo Brasil. Estima-se que, na época da chegada dos portugueses, fossem mais de 1.000 povos, que juntos somavam entre 2 e 4 milhíµes de pessoas. Pesquisas arqueológicas em São Raimundo Nonato, no interior do Piauí­, registram indí­cios da presença indí­gena no Brasil datados como anteriores há 10 mil anos. Nos dias de hoje encontramos em território brasileiro 234 povos, falantes de ao menos 180 lí­nguas diferentes.

   

                      Grande parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, situadas no interior de 674 Terras Indí­genas, de norte a sul do território nacional. A população indí­gena no Brasil decresceu drasticamente se comparado com os números da época de Cabral, o que se deu principalmente em função da agressão direta dos colonizadores e a baixa imunidade dos povos nativos com relação a novas doenças trazidas pelos europeus. Hoje, os mais de 230 povos indí­genas somam por volta de 800 mil pessoas, segundo o Censo IBGE 2010. Destes, cerca de 300 mil estão vivendo em cidades, e outros 500 mil nas áreas rurais, correspondendo a 0,42% da população total do paí­s.

     

                      Os guaranis

         

                      Os povos guaranis constituem uma das mais representativas etnias indí­genas do Brasil, somando atualmente cerca de trinta mil pessoas. Antes dos colonizadores, os guaranis eram mais de 2 milhíµes espalhados pelo paí­s, divididos em diversos subgrupos étnicos. Estes indí­genas possuem cultura milenar, baseada em sua ancestralidade histórica, polí­tica e organizacional. Nas suas convicçíµes culturais, os guaranis detêm conhecimentos ancestrais de elevada categoria, baseados na continuidade de sua lí­ngua, que foi preservada até os dias de hoje apesar de uma histórica série de pressíµes polí­ticas, econí´micas e étnico-culturais.

 

                      O dialeto Guarani é pertencente ao tronco tupi, que congrega várias lí­nguas indí­genas da América do Sul e apresenta grande distribuição geográfica pelo continente. Boa parte das tribos indí­genas que habitavam o litoral do Brasil, quando da chegada dos portugueses em 1500, falava lí­nguas pertencentes a esta famí­lia. Muitas palavras de origem Tupi-guarani foram, inclusive, incorporadas ao vocabulário dos brasileiros. O guarani é uma das lí­nguas indí­gena de maior importância atualmente, sendo também um dos idiomas oficiais do Paraguai, ao lado do espanhol.

       

                      A aldeia indí­gena de Torres

       

                      Fui conduzido pelo Secretário Municipal da Ação Social, Carlos Roberto Monteiro "Tubarão", até a aldeia guarani estabelecida na reserva Pitangueiras, bairro Campo Bonito. Uma área de 97 hectares de terra as margens da BR 101, propriedade cedida aos í­ndios pelo Dnit durante o processo de duplicação da estrada. Chegando lá fui apresentado a Virgulino da Silva, um dos í­ndios guarani da aldeia. Agente de saúde, já faz 11 anos que vem trabalhando no cuidado e auxí­lio médico aos membros da sua tribo. Além disso, ele é o porta-voz da comunidade em nossa conversa. "Somos 148 membros na aldeia, e temos 25 famí­lias morando aqui. Vivemos de forma sustentável, plantamos aipim, batata doce, milho. A prefeitura ajudou e hoje a terra é boa, estamos até tentando fazer um pomar. Nos também criamos galinhas, perus, patos e coelhos. Também fazemos a caça e a pesca", indica o í­ndio.

 

                      Sempre com a cuia do chimarrão na mão, Virgulino lembra que o chimarrão, uma das mais fortes tradiçíµes gaúchas, é um legado Guarani. O mate tem entre os í­ndios guaranis uma origem mitológica, na verdade. Começaram a usar a erva em tempos distantes, por indicação de certo pajé. Segundo a lenda, o deus Anhang teria aparecido a este pajé, dizendo-lhe das virtudes e dos males do mate. Anhang é o protetor da caça e do campo para os guaranis, embora tenha sido comparado com o demí´nio para os jesuí­tas catequizadores. Desde então os í­ndios começaram a usar a erva com as devidas precauçíµes para tirar dela as vantagens tí´nicas e medicinais, mas com a água não tão quente para evitar seus inconvenientes.

                                               

                      Na aldeia guarani no Campo Bonito, as tradiçíµes e ritos da cultura indí­gena continuam sendo preservados, ainda que não de forma tão expressiva quanto no passado. "Temos nossa Opy aqui, nosso lugar sagrado onde fazemos as oraçíµes. Para nós, o mundo foi criado por Nhanderu, o deus sol, e Tupã representa o divino, o filho de Deus. Nossas tradiçíµes são passadas de pai para filho", explica Virgulino. Além disso, a lí­ngua guarani continua sendo a lí­ngua-mãe da tribo, a primeira a ser ensinada í s crianças, ainda que as elas aprendam também o português, que será compulsoriamente incorporada nas escolas. "Temos crianças estudando nos colégios de Campo Bonito e íguas Claras, mas queremos reformar uma das casas daqui para fazer uma escola nossa". Na aldeia também continuam sendo celebradas festas í  maneira guarani, com danças e cantos rituais, utilização de adornos e instrumentos. Todo esse processo cultural ajuda na manutenção do contato com as divindades.

               

Preconceito

         

                      Como porta-voz da tribo, Virgulino relembra do preconceito que ainda é sofrido pelos povos indí­genas nos tempos modernos, o que dificulta a inclusão dos guaranis nas cidades. "Fica muito difí­cil encontrar trabalho para a gente. Eu sou o único guarani com um emprego fixo na tribo, o máximo que os outros fazem são alguns bicos na lavoura. Mas queremos uma chance de trabalhar, o problema é que faltam oportunidades" O agente de saúde reclama que a burocracia em relação aos documentos necessários para trabalhar é muito grande, e é um processo que vai contra a cultura guarani. "Acho que na cidade ainda falta respeito do povo com o papel do í­ndio. Nós sentimos falta de um local fixo onde possamos mostrar nosso trabalho, vender nosso artesanato".

 

                       Mesmo assim, Virgulino assume que a tribo já esta bastante incorporada com as coisas do mundo contemporâneo. "Somos í­ndios tecnológicos (risos), não tem como ficar de fora dessa modernidade. Temos geladeira, som, celulares, televisão a cabo. Só estamos precisando um computador agora, com internet, isso é importante e faz falta aqui". O acesso a saúde também foi uma das boas coisas do maior contato da tribo com a cidade, e a Funasa se responsabiliza pelo atendimento médico na aldeia ao menos uma vez por semana. "Felizmente a saúde está boa aqui, mesmo com o inverno não tivemos casos sérios, as crianças não tem problemas com o peso ou doenças e a Funasa também ajuda quando precisamos". Já na área da habitação, a comunidade guarani da reserva Pitangueiras encontra deficiências. Vivendo em barracos improvisados, eles pedem auxí­lio para a construção de novas moradias. "O problema é que falta material para construir as casas, se tivéssemos o material e com alguma ajuda, nós mesmos poderí­amos fazer essas moradias", ressalta Virgulino.

                        Apesar dos problemas, o agente de saúde da tribo pensa que a vida tem melhorado nos últimos anos, em função de a tribo não estar mais tão isolada da civilização urbana. "Antes faltava organização, hoje em dia está melhor. A prefeitura vem ajudando também, mas mesmo assim ainda faltam coisas importantes para algumas famí­lias da aldeia" Virgulino pede por uma ação de voluntariado para suprir as necessidades da comunidade, que sonha com um computador e precisa de material de construção, roupas quentes e cobertores para melhor suportar o frio do inverno. Para quem quiser ajudar, doaçíµes podem ser feitas através do contato com o próprio Virgulino, pelo celular (9620-3769), ou diretamente com A FOLHA (3626-1857).                    

 


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