Pepe Mujica em Porto Alegre: "Presidente pobre es lo carajo!"

16 de setembro de 2014

 

 

O jornal A FOLHA acompanhou a palestra do presidente do Uruguai, Pepe Mujica, que ocorreu na noite de quarta-feira (10) no salão de atos da UFRGS.   Entre outras grandes citaçíµes, ele disse que era um equí­voco considerá-lo um presidente pobre. "Pobre é aquele que precisa de muito, pois nunca alcança nada, nunca está satisfeito".  

 

Por Guile Rocha*

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Aplaudido de pé e entusiasticamente, por uma plateia repleta de jovens (de no mí­nimo 7 paí­ses diferentes) reunida no salão de atos da UFRGS (em Porto Alegre) no iní­cio da noite de quarta-feira (10). Assim foi recebido o presidente uruguaio, José Pepe Mujica, palestrando em evento comemorativo aos 80 anos da UFRGS. Na maior parte do tempo em que esteve no salão, Pepe estava utilizando um óculos escuros, para estranhamento da plateia. Mas o ex-guerrilheiro Tupamaro, e hoje referência de uma juventude brasileira esperançosa por mudanças, explicou: "As luzes são muito fortes aqui, me lembram os interrogatórios militares (risos)"

Pepe Mujica abordou  o paradoxal momento vivido pela humanidade: "Por um lado, estamos acumulando conhecimento e avanços cientí­ficos e, por outro, vivendo uma crise polí­tica e de valores, onde somos funcionários do consumismo. As vezes parece que vamos passar nossa vida inteira apenas trabalhando para pagar as contas e querer coisas que não podemos comprar. Mas não pode se esquecer de aproveitar a vida, pois esta não se pode comprar".

 

Reconhecimento, liberdade e responsabilidade

 

Conforme o presidente uruguaio, o ser humano precisa pensar como uma espécie global, não como bloco, paí­s ou continente. "A natureza nos dotou com uma consciência, e temos que aproveitar esse milagre". defendeu ele, falando ainda que vivemos em uma época desafiadora, em que os paí­ses latino-americanos precisam se agrupar. Culturalmente, ele afirmou que a América Latina passou anos se espelhando nos Estados Unidos e na Europa, sem que os paí­ses vizinhos olhassem uns aos outros: Hoje já nos reconhecemos com uma cultura própria. No passado, nossos poetas tinham que ser reconhecidos em Paris ou estavam fritos", brincou.

Mujica diz que sua principal luta é pela liberdade dos seres humanos de viverem dignamente sua vida. "Mas não se pode ser um desocupado, tem-se que achar um propósito para a existência. Temos que ter a liberdade de poder fazer as coisas que gostamos e nos inspiram". Considerado um presidente reformista – tendo em vista que o Uruguai legalizou (com as devidas restriçíµes) a maconha, o aborto e o casamento gay – Pepe Mujica falou das religiíµes como uma tradição que acompanha o ser humano desde o princí­pio, mas que podem ser um recurso limitador da ‘vida vivida’. "Temos apenas uma oportunidade nesse mundo, e não podemos desperdiçar pensando numa vida após esta. Do mesmo jeito que as vezes uma pessoa passa 30 anos apenas estudando e esquece-se do mundo real a sua volta".

Dado o fato de estar proferindo uma palestra na universidade, Mujica se dirigiu diretamente aos estudantes presentes no evento e os chamou a cumprirem seu papel: Não se pode ser acadêmico e não sentir a responsabilidade que se tem com a parcela do nosso povo quase analfabeto, disse ele. O presidente uruguaio também defendeu o fim das fronteiras acadêmicas: Até quando médicos brasileiros não vão poder trabalhar no Uruguai? Porque não há um intercâmbio maior de talentos? Pra quem serve, afinal, a inteligência? Para o povo mundial ou para as corporaçíµes?.

 

Contra a guerra e pela vida

 

Para Mujica, dizer que não se tem recursos para combater a fome e a falta de água global é uma vergonha. Gasta-se no mundo U$ 1 milhão por minuto com a guerra, enquanto não se olha para as grandes desigualdades. O investimento na guerra é o grande erro da humanidade. Sabemos o que fazer e temos como fazer, mas seguimos olhando para outro lado, afirmou. Ele citou o exemplo de polí­ticos que, voltados para uma agenda própria “ como a busca por uma reeleição “ deixam de atentar para o que deveriam. Se o que vivemos não é uma crise polí­tica, eu não sei o que é. Sou militante não porque me pagam, mas porque estou a serviço de meu sonho, disse o presidente uruguaio, sendo efusivamente aplaudido .

Ressaltando as capacidades humanas positivas, Mujica afirmou que o homem deve defender o mundo no qual nasceu e a natureza da qual fazemos parte, aprendendo com os erros já cometidos, evitando as guerras, usando a inteligência para levar a vida de outro modo, que não como um mero pagador de contas. Não faço apologia í  miséria, é exatamente o contrário, defendo a vida. Primeiramente, a vida humana, que, para ser possí­vel, precisa defender toda a vida que nos acompanha neste barco", encerrou Mujica.

 

*Com Sul 21 e Zero Hora

 

 

 


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