PRESíDO FEMININO DE TORRES (PARTE 1): Disciplina, Arte e reinserção social

10 de fevereiro de 2015

 

Detentas produzindo arte a partir de material reciclado, no pavilhão que elas próprias reformaram

 

Até a década passado local onde instalava-se   um complicado presí­dio masculino, prédio localizado no bairro Igra tornou-se abrigo para um disciplinado presí­dio feminino.

 

Por Guile Rocha

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 O espaço do Presí­dio Feminino de Torres – no bairro Igra Norte –   é atualmente local de detenção para 69 mulheres presas no Litoral Norte.   Sua lotação máxima é de 73 apenadas, sendo que em alguns momentos já houveram mais de 100 mulheres lá detidas (apesar da superlotação ser uma situação pouco usual).   São mulheres, em sua grande maioria (70%), presas por delitos relacionadas ao tráfico de drogas – seja por serem cúmplices em crimes ou atuarem diretamente neles. Há ainda algumas mulheres presas por crimes diversos – como furto,roubo e agressão – e  2 mulheres presas por homicí­dio. Algumas vão passar apenas a semana no presí­dio, outras tem muitos anos até cumprirem suas penas integralmente. Mas atualmente não importa a pena: o espaço pode ser considerado um exemplo regional na relação com pessoas privadas de seu direito de liberdade.

O jornal A FOLHA visitou o local (juntamente com o professor e artista plástico Roni Dalpiaz) e conversou com a administradora do presí­dio, Ursula Bagagnollo. "A grande maioria das presas vem das classes mais baixas, muitas eram moradoras de rua e viciadas em drogas, como álcool, cocaí­na e principalmente o crack (uma chaga que destrói a dignidade das pessoas). São mulheres no geral com problemas de base familiar, que em algum momento perderam a noção de civilidade, os valores. E muitas das detentas são mães, que tem que abdicar da vida com os filhos para ficar presas" relata íšrsula. Ela complementa dizendo que as apenada tem tratamento psicológico do CAPS – Centro de Atenção Psico Social – com acesso aos medicamentos para a desintoxicação (quando este tratamento for necessários no momento da detenção)..

Entretanto, o tempo de detenção pode significar também um momento de reflexão e aprendizado. A administradora do presí­dio diz que o local é totalmente   livre de drogas (e celulares), e que as presas tem uma chance de evoluir a partir dos muitos cursos profissionalizantes oferecidos na unidade prisional torrense.

 

Projeto RENOVAR-TE

 

Um exemplo é o Projeto RENOVAR-TE, que está promovendo cursos de artesanato para que as presas detidas no local tenham a chance de aprender um novo ofí­cio,   transformando material reciclado em arte. No momento, ocorrem no local cursos de pintura e decupagem,   com 10 detentas inscritas em cada um deles. E outros cursos na área do artesanato serão realizados em breve, ampliando o leque de conhecimentos artí­sticos das detentas interessadas.

Segundo Ursula, a idéia do RENOVAR-TE é patrocinada pelo conselho da Comunidade de Tramandaí­, que providencia o material utilizado na confecção dos objetos – como pinceis e tintas. Já o material reciclado – que varia entre latas de alumí­nio, garrafas pet e de vidro –   é arrecadado pela própria direção do presí­dio junto í  comunidade torrense. E o resultado do trabalho de artesanato feito pelas apenadas é surpreendente: belas bonecas, objetos decorativos, pinturas em garrafas. "As presas que sabem mais vão ensinando para as outras, e assim estimulamos nossa criatividade. E quando estamos aqui, fazendo nossa arte, nem sentimos o tempo passar", conta uma das apenadas inscritas ao RENOVAR-TE, que trabalhava com sua arte durante a nossa visita. Outra motivação para as presas é que, a cada 5 dias que se participa de um dos cursos, reduz-se um dia de sua pena criminal.

 As peças produzidas são de tanta qualidade que devem  ser exportado para a Europa em breve. " No dia 7 de março haverá um chá-bazar (com o apoio dos Conselhos das Comunidades de Torres e Tramandaí­) para mostrar o trabalho das detentas a comunidade, além de abrir as portas do presí­dio para que a sociedade entenda melhor como as coisas acontecem por aqui", indicou Ursula.

 

Diversos cursos para as presas

 

Mas o projeto RENOVAR-TE é apenas uma das muitas ferramentas de reinserção social disponí­vel para as detentas do Presí­dio Feminino de Torres. Diversos cursos profissionalizantes do SENAC e PRONATEC também são oferecidos no local, sendo que a cada seis meses novos módulos ficam a disposição.  Atualmente ocorrem os cursos de   camareira e auxiliar de cozinha,e depois os de padeira/ confeiteira, doméstica e manicure. Há ainda cursos de inglês, de alfabetização e do EJA (Ensino de Jovens Adultos, supletivo do 1 ° e 2 ° grau). "As presas, contudo, não são obrigadas a se inscrever em qualquer curso, fazem isso por livre e espontânea vontade. Algumas infelizmente não demonstram qualquer interesse, mas outras apenadas chegam a estar inscritas em 3 cursos ao mesmo tempo" ressalta Ursula Bagagnollo.

Outro projeto exemplar realizado no Presí­dio Feminino de Torres em 2014 foi o ‘Sonho de Liberdade’, que efetivou a reforma de um pavilhão do presí­dio pelas próprias presas (numa iniciativa da Fundação Maçí´nica Educacional). Ao todo,   33 detentas receberam cursos de elétrica básica, pintura-textura predial e revestimento cerâmico, e após a especialização partiram para o trabalho. O resultado foi que o pavilhão, antes em péssimas condiçíµes, tornou-se um espaço bem acabado, agradável para a convivência social. E além disso, as presas em maior destaque deverão ser contratadas pela construção civil assim que cumprirem suas penas (por meio de um   acordo com a ACTOR-Torres e a Prefeitura de Dom Pedro de Alcântara)

 

Reinserção social

 

Segundo a gestora do presí­dio, as detentas do by browseonline">regime semiaberto já saem com um emprego garantido (a partir de parcerias efetivadas tanto com a iniciativa pública quanto privada), e a Diretoria da Mulher – vinculada a prefeitura – ainda oferece cursos e assistência para elas fora do horário de serviço. Além disso, recentemente foi efetivada uma parceria com a Prefeitura de Torres para inscrever as apenadas no Minha Casa Minha Vida, oportunizando facilidades para a by browseonline">compra da casa própria. "Damos os estí­mulos para que estas mulheres não voltem para a vida do crime, para que sejam reinseridas no contexto social", destaca Ursula.

E com o foco na reinserção social, a direção do presí­dio faz um acompanhamento das mulheres – desde o perí­odo do regime semi aberto – após estas serem liberadas novamente para a sociedade. "Tem uma menina do semi aberto que deve sair mês que vêm, mas já constituiu famí­lia por Torres. Outra terminou o segundo grau aqui no presí­dio, conseguiu emprego no mercado e vai se casar também (está inscrita no Minha Casa Minha Vida). Havia uma ex-detenta que tinha problemas com drogas e que saiu recentemente: ela voltou a morar com a famí­lia (com a qual não tinha mais contato), está com um emprego, livre das drogas (pelo menos por enquanto) e com um dos filhos (o outro está na casa de passagem de Torres, mas estamos ajudando a mulher a reaver a guarda da criança)" relata a administradora do presí­dio.

íšrsula finaliza dizendo que muitas presas consideram o presí­dio   como um colégio interno, que funciona como um local para recuperação da dignidade e incorporação da disciplina em suas vidas.


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