Maria Helena Tomé Gonçalves ( mhtgoncalves@hotmail.com)
Do sexto andar de um prédio na parte baixa e plana da cidade, do qual avistamos a Lagoa do Violão, o Morro do Farol, o mar, as casas ao redor e os prédios mais distantes e mais altos e que cada vez mais apontam para o céu, através das janelas envidraçadas da grande sala onde praticamos Ioga manhã cedinho, recebemos a visita cordial e amistosa de um bem-te-vi. Todas as manhãs, mal a atividade começa, lá aparece ele voando, depois de algumas piruetas no ar pousa no peitoril da janela, faz mesuras, empluma-se, bica o vidro como se estivesse a chamar nossa atenção para a sua presença. Como os vidros são espelhados, acreditamos que ele vê sua própria imagem refletida e tenta com ele mesmo comunicar-se, pois se percebe como se fosse outro pássaro da sua espécie e seu parceiro. Eu, porém, prefiro pensar que ele vem para nos ver praticar nossos exercícios físicos e nossa meditação, quando numa postura confortável nos deixamos abstrair pelo vazio de pensamentos e preocupaçíµes buscando a plenitude de ser, leves e soltas como o voar daquele pequeno amigo. Sim, porque depois de alguns contatos, já o percebo como um amigo que diariamente nos diz bom dia.
No decorrer das posturas a gente acaba esquecendo a presença do pequeno pássaro, quando ele torna a bicar de forma mais forte e fazendo mais barulho como se dissesse: – Olhem, eu ainda estou aqui vendo vocês! Nossa Mestra diz que não são vários pássaros, mas que é sempre o mesmo que retorna. Certamente, mas como eles não vivem sós, deve haver outros morando nas redondezas. No pátio da nossa, bem distante da sala de Ioga, sempre aparecem bem-te-vis gritantes do seu próprio nome. Certa feita, vinha visitar nosso terreno um sabiá que assobiava longa e estridentemente sua canção predileta. No cercado do canil temos sempre pardais pousados, esperando pacientemente que o cão se descuide para que possam furtar algum grão da sua ração canina. Enquanto esperam, vão fazendo seus cocí´s ao longo de todo o telado para reclamação de quem tem que limpar o canil todos os dias. Volta e meia aparecem pombas rolas beliscando a ração junto com os pardais e fugindo ao menor movimento do nosso cão. Na frente de casa, onde há flores abertas, especialmente quando estão floridas as orquídeas presas ao tronco do frondoso flanboyant, basta ficar observando durante os dias de sol que sempre aparecem beija-flores redemoinhando em busca de néctar que os alimente.
Observar toda essa passarada ao redor me deixa com um sentimento esperançoso de que a vida não está assim tão mal, que há espécies silvestres que estão conseguindo sobreviver í devassa que o ser humano tem produzido no planeta e estão até conseguindo conviver com o homem urbano e suas pitorescas construçíµes de casas empilhadas umas em cima das outras, de pátios bem cercados e de casas de cachorro com espaço telado para que eles sobrevivam fazendo caminhadas e corridas ao longo do pátio que lhes foi destinado. Meu desejo é de que continuem vivendo entre nós os bem-te-vis, os sabiás, os pardais, as pombas-rolas e os beija-flores e todos aqueles pássaros que nos buscam manhã cedinho para dizer-nos bom dia!


