UM PíSSARO NA JANELA

28 de maio de 2010

Maria Helena Tomé Gonçalves ( mhtgoncalves@hotmail.com)  

 

                      Do sexto andar de um prédio na parte baixa e plana da cidade, do qual avistamos a Lagoa do Violão, o Morro do Farol, o mar, as casas ao redor e os prédios mais distantes e mais altos e que cada vez mais apontam para o céu, através das janelas envidraçadas da grande sala onde praticamos Ioga manhã cedinho, recebemos a visita cordial e amistosa de um bem-te-vi. Todas as manhãs, mal a atividade começa, lá aparece ele voando, depois de algumas piruetas no ar pousa no peitoril da janela, faz mesuras, empluma-se, bica o vidro como se estivesse a chamar nossa atenção para a sua presença. Como os vidros são espelhados, acreditamos que ele vê sua própria imagem refletida e tenta com ele mesmo comunicar-se, pois se percebe como se fosse outro pássaro da sua espécie e seu parceiro. Eu, porém, prefiro pensar que ele vem para nos ver praticar nossos exercí­cios fí­sicos e nossa meditação, quando numa postura confortável nos deixamos abstrair pelo vazio de pensamentos e preocupaçíµes buscando a plenitude de ser, leves e soltas como o voar daquele pequeno amigo. Sim, porque depois de alguns contatos, já o percebo como um amigo que diariamente nos diz bom dia.    

                      No decorrer das posturas a gente acaba esquecendo a presença do pequeno pássaro, quando ele torna a bicar de forma mais forte e fazendo mais barulho como se dissesse: – Olhem, eu ainda estou aqui vendo vocês! Nossa Mestra diz que não são vários pássaros, mas que é sempre o mesmo que retorna. Certamente, mas como eles não vivem sós, deve haver outros morando nas redondezas. No pátio da nossa, bem distante da sala de Ioga, sempre aparecem bem-te-vis gritantes do seu próprio nome. Certa feita, vinha visitar nosso terreno um sabiá que assobiava longa e estridentemente sua canção predileta. No cercado do canil temos sempre pardais pousados, esperando pacientemente que o cão se descuide para que possam furtar algum grão da sua ração canina. Enquanto esperam, vão fazendo seus cocí´s ao longo de todo o telado para reclamação de quem tem que limpar o canil todos os dias. Volta e meia aparecem pombas rolas beliscando a ração junto com os pardais e fugindo ao menor movimento do nosso cão. Na frente de casa, onde há flores abertas, especialmente quando estão floridas as orquí­deas presas ao tronco do frondoso flanboyant, basta ficar observando durante os dias de sol que sempre aparecem beija-flores redemoinhando em busca de néctar que os alimente.  

                      Observar toda essa passarada ao redor me deixa com um sentimento esperançoso de que a vida não está assim tão mal, que há espécies silvestres que estão conseguindo sobreviver í  devassa que o ser humano tem produzido no planeta e estão até conseguindo conviver com o homem urbano e suas pitorescas construçíµes de casas empilhadas umas em cima das outras, de pátios bem cercados e de casas de cachorro com espaço telado para que eles sobrevivam fazendo caminhadas e corridas ao longo do pátio que lhes foi destinado. Meu desejo é de que continuem vivendo entre nós os bem-te-vis, os sabiás, os pardais, as pombas-rolas e os beija-flores e todos aqueles pássaros que nos buscam manhã cedinho para dizer-nos bom dia!  

 


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