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Torres, RS, 30 de Abril de 2017.

Melhor chef mulher do mundo iniciou carreira gastronômica em Torres
Seg, 04 de Julho de 2016 19:06

 

 Da infância em Torres (foto acima) para  o reconhecimento internacional como chef de cozinha

 

 

Neta de Ivo Rizzo, arquiteto com grande participação na construção civil de Torres, Helena Rizzo foi eleita a melhor chef mulher do mundo pelo prêmio Veuve Cliqcot, concedido pela revista inglesa “The Restaurant".

 


Por Maiara Raupp*
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Helena Rizzo nasceu e cresceu em Porto Alegre. Na família, virou folclore seu interesse precoce por comida: nas festas de aniversário de outras crianças, dispensava docinhos e salgadinhos para investigar o que os adultos estavam comendo. Adorava brincar de “comidinha” e, um pouco mais velha, fazia bolos e bombons para vender a conhecidos.

Durante o verão de 1997, motivada pela diversão e o desejo de se manter, Helena juntou a prima e uma amiga e abriu um bar em Torres. “Montamos um bar que se chamava Siroco. Vendíamos sanduíches (comprados) e eu fazia tortas e crumbles - prato doce de origem britânica, feito de compota de frutas picadas cobertas com uma mistura de gordura, farinha e açúcar, assado até que a cobertura fique crocante. Vendíamos também açaí e bebidas. Era um bar bem simples, mais de bebida e balada, na beira do rio Mampituba. Foi minha primeira experiência de negócio”, contou Helena ao Jornal A FOLHA.

O Siroco funcionou por dois meses durante aquele verão de 1997. “Eu já gostava de cozinhar nessa época, mas não tinha ideia do que iria fazer da vida na ocasião. Torres foi a praia em que cresci. O lugar onde passava todos os verões com a família, os primos e amigos. As melhores recordações que tenho da infância são de Torres, onde meus pais têm apartamento para o qual vão vez ou outra”, completou ela.

 

De futura arquiteta e modelo para melhor chef mulher do mundo 

Após esse verão, veio a surpresa quando Helena resolveu prestar vestibular para arquitetura na PUC-RS. A ideia era seguir a trajetória do pai e do avô e se formar arquiteta. Mas a surpresa foi ainda maior quando Helena trancou a faculdade para seguir a carreira de modelo em São Paulo. E, em uma reviravolta bastante inesperada, acabou virando a melhor chef mulher de 2014, segundo o Prêmio Veuve Clicquot, concedido pela revista inglesa “The Restaurant”. “Ela gostava de desenhar e tal, mas cozinha sempre foi sua paixão. Puxou a mim”, contou o pai de Helena, Roberto Bins Jr., em entrevista ao O Globo. “Mesmo quando ela largou a faculdade para ser modelo em São Paulo, a gente via que era uma coisa de guria, não algo de longo prazo".

Quem incentivou a mudança para São Paulo foi uma amiga de Porto Alegre, a modelo e apresentadora de TV Fernanda Lima. “Cheguei a São Paulo alguns anos antes da Helena. Uma vez, ao voltar para visitar Porto Alegre, a encontrei um pouco insatisfeita. Botei a maior pilha para ela se mudar para São Paulo e, em alguns meses, ela já estava lá. Nossa vida de modelo era apenas um pretexto para conseguirmos ser independentes na cidade grande. Trabalhamos, curtimos e conhecemos muita gente”, disse Fernanda - ainda amigona e hoje sócia de Helena - em entrevista ao O Globo. Helena chegou a engrenar trabalhos, mas o 1,68m de altura limitava convites. Além disso, ela estava sempre acima do ‘peso de modelo’. “Eu era comilona. Pelo estresse da profissão (na cozinha), fiquei até mais magra depois que comecei a trabalhar com comida”, falou a chef.

Aos poucos ela foi fazendo a transição da moda para a gastronomia: criou uma empresa de catering - serviço de fornecimento de refeições coletivas -, passou por restaurantes paulistanos e partiu para um estágio no interior da Itália. Novamente “pilhada” por Fernanda Lima, foi para Barcelona, onde encontrou aquela que considera sua grande escola, o restaurante El Celler de Can Roca, do celebrado chef Juan Roca. Lá ela conheceu o ex-marido, Daniel Redondo, então chef de cozinha, e veio com ele para São Paulo, onde abriu o Maní - restaurante de comida contemporânea brasileira, inaugurado em 2006. Hoje, ela e seus outros cinco sócios (que incluem Fernanda Lima e o ex-marido Daniel), são responsáveis pelos quatro endereços do grupo Maní em São Paulo. Além do consagrado Maní, a Padoca do Maní, o restaurante Manioca e a Casa Manioca.

 

Asas ao sonho 

Helena chegou aonde chegou porque decidiu dar asas à paixão pela gastronomia que a acompanhava desde pequena. “Eu já fazia uns bicos na cozinha quando era modelo e vim para São Paulo. Um dia surgiu o convite para ser chef, e eu aceitei”, disse ela, que em maio deste ano foi uma das cinco mulheres escolhidas por Giorgio Armani em pessoa para o "Sì Women's Circle", um conversation starter que revela a história de mulheres que resolveram dizer “sim” aos sonhos e não se deixaram desiludir nessa decisão.

“Eu enfrentei machismo nas cozinhas lá fora”, confessou ela, que morou na Itália e na Espanha. “Os chefs diziam ‘ah, você pode fazer o prato até aqui, o resto não pode’. Mas no Brasil não senti tanto isso. A imagem do chef machão está se desconstruindo. Eu sempre levei a feminilidade para a cozinha. Não tem problema você pedir ajuda para carregar uma panela pesada, não tem que imitar a postura dos homens”, destacou. Não é à toa que a chef estrela um dos vídeos da Armani que retratam o empoderamento feminino.

Atualmente Helena fica incomodada com a idolatria em torno da figura do chef de cozinha “É claro que é bacana receber prêmios, afinal é o reconhecimento de um trabalho não só meu, mas de toda uma equipe. Só que melhor do mundo não existe”, afirmou a gaúcha, que nunca fez um curso de culinária na vida. “Minha escola foram os estágios que fiz em restaurantes”.

Ela contou ainda que uma vez em que saiu da cozinha para o salão do Maní, encontrou um sujeito que falou: “Vim ver se é tudo isso mesmo!”. E ela respondeu na hora: “Não é tudo isso. Relaxa, senta, come, depois me conta”.

 

 

360° de Helena  

Gaúcha de Porto Alegre, Helena Rizzo nasceu em 1978, filha de mãe artista e pai engenheiro. Flertou com a arquitetura, numa breve passagem pela faculdade.

Aos 18 anos, decidida a experimentar a vida fora da casa dos pais, mudou-se para São Paulo. Enquanto fazia alguns trabalhos como modelo, foi garçonete da banqueteira Neka Menna Barreto e estagiou na cozinha dos restaurantes Roanne, de Emmanuel Bassoleil, e Gero, do Grupo Fasano. Convidada a chefiar a cozinha do Na Mata Café, desconfiou que talvez o universo da gastronomia fosse mesmo o seu.

Aos 21 anos, juntou dinheiro, pôs na mala o caderno no qual desenhava e anotava seus devaneios, e embarcou para a Europa. Estagiou nos restaurantes La Torre e Sadler, na Itália.

Um dia, foi jantar com amigos no celebrado El Celler de Can Roca, em Girona (Espanha), e tudo começou a fazer sentido. Entendeu que a comida poderia ser um meio de expressão artística, e não apenas um trabalho mecânico e monótono, como tinha sido a sua experiência até então. Depois de muita insistência, ouviu um “sim” de Joan Roca, um dos proprietários. Na cozinha do Celler, amansou os seus anseios. Helena passou quatro meses na casa de Girona e um ano no Moo, restaurante dos Roca em Barcelona. Foi no Celler que conheceu Daniel Redondo, então chef de cozinha. Apaixonou-se.

De volta a São Paulo, recebeu de amigos a proposta de abrir um restaurante. Convidou Daniel a se mudar para o Brasil e dividir a cozinha com ela. Em 2006, nascia o Maní. À frente dele, Helena e Daniel desenvolvem uma cozinha contemporânea profundamente calcada em ingredientes simbólicos da cozinha brasileira. Suas criações, ora grandiosas, ora prosaicas, refletem memórias e o amor pelo produto. Helena ainda desenha em cadernos e, vez ou outra, nas paredes do Maní.

Após dez anos de relacionamento com o chef catalão, Daniel Redondo, o casal se separou em meados de 2014. Meses depois, Helena conheceu o mato-grossense, Bruno Kayapy, então guitarrista da banda Macaco Bong. Hoje os dois são pais de Manoela, uma bebê de 8 meses de vida.

 

 

*Com informações de O Globo e Revista TPM

 
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