OPINIÃO – Silêncio das Portas Fechadas do Museu Histórico de Torres (RS)

O MP exigiu que a administração municipal tome ações concretas para a conservação do museu elaborando um plano detalhado de revitalização em 180 dias (...) "Resta uma provocação aos cidadãos e entidades culturais: como vocês fiscalizarão cada dia desse cronograma até agosto de 2026? A memória de Torres será finalmente resgatada das sombras ou continuará a ser exibida como um troféu de descaso público?"

20 de março de 2026

Um museu deve ser um espaço que conecta o passado ao presente, atuando como um local de acesso à memória coletiva. Porém, em Torres, a realidade do Museu Histórico Municipal é bem diferente: ele permanece fechado, com grades e cadeados que além de não protegerem isolam a história da  comunidade.

A Biblioteca Municipal, por sua vez, também foi fechada sem explicações. Um acervo valioso foi entulhado de maneira inadequada, apesar da cidade contar com um bibliotecário em seu quadro.

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A negligência das últimas gestões municipais – tanto do executivo quanto do legislativo – no que tange ao museu e à biblioteca transmite uma mensagem alarmante sobre o valor que damos à nossa história.  Se permitirmos que nossos marcos históricos sejam trancados e esquecidos, como saberemos para onde estamos indo como comunidade?

Diante da inação do Poder Executivo em preservar esses patrimônios, a comunidade notificou o Ministério Público do Rio Grande do Sul – MPRS, que iniciou Inquéritos Civis para investigar a situação – após uma decisão do seu Conselho Superior – julgando um arquivamento prematuro pois não existia uma solução efetiva para o problema, o que configurava segundo o parecer uma “lesão aos interesses coletivos tutelados pelo MP”. A falta de diálogo foi recorrente, por parte dos gestores municipais, inviabilizando que soluções sustentáveis fossem encontradas.

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Após anos de sucessão de procuradores, o Ministério Público entrou com uma Ação Civil Pública – ACP para romper esse silêncio. O município acumula uma quantidade grande delas por diversos motivos. O  que está em jogo não é apenas um prédio antigo ou um acervo de livros abandonado, mas a luta da justiça contra a negligência pública que ameaça a identidade histórica da cidade, que padece pela falta de  atenção de seus representantes eleitos.

Em resposta à Ação Civil Pública, que visa obrigar o governo municipal a reformar o Museu Histórico, apontou que o novo Centro Municipal de Cultura, resultante da revitalização do prédio da antiga prefeitura, incluiria: 1. O Museu Histórico Municipal; 2. A Biblioteca Pública Municipal, integrando dois  equipamentos culturais para facilitar o acesso da população e o 3. Garantir à comunidade o Direito à Cultura, sendo que o juiz reconheceu a obrigação do município em proteger o patrimônio, mas negou um pedido urgente para que as obras começassem imediatamente, justificando que pela inércia de anos sem solução do problema, não há risco iminente e, portanto, permitiu a manifestação da defesa antes de uma decisão judicial definitiva.

Sentindo que a decisão era insuficiente, o Ministério Público apresentou um Agravo de Instrumento no TJRS. O parecer da desembargadora relatora de fevereiro de 2026 foi favorável ao MP, exigindo que a administração municipal tome ações concretas para a conservação do museu elaborando um plano detalhado de revitalização em 180 dias, incluindo informações sobre os recursos financeiros, as etapas de execução e a data prevista para o início das obras, vencendo o prazo final em agosto de 2026.

Nesta ação de Patrimônio Histórico, o MPRS cumpre o seu papel constitucional de fiscal da lei e protetor da cultura. A sua intervenção é um alerta importante para a gestão pública: a preservação cultural não é uma opção política, mas uma obrigação legal.

A vitória da comunidade com o apoio do MPRS no Tribunal de Justiça é um marco para o patrimônio histórico do RS, mas a folha de papel da decisão não reconstrói paredes por si só. A força da lei precisa do amparo da vigilância popular. Se os cadeados da prefeitura sequestraram a história de Torres, a pressão da sociedade civil deve funcionar como o “cadeado inverso”: aquele que prende os gestores aos seus prazos e responsabilidades legais.

A responsabilidade agora recai sobre o Judiciário, que decidirá se o prédio da antiga prefeitura será revitalizado em um espaço cultural ou se permanecerá como um símbolo de descaso.

Resta uma provocação aos cidadãos e entidades culturais: como vocês fiscalizarão cada dia desse cronograma até agosto de 2026? A memória de Torres será finalmente resgatada das sombras ou continuará a ser exibida como um troféu de descaso público? O futuro da identidade torrense está em  jogo, e o silêncio não é mais uma opção.

 

*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***

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Publicado em: Cultura






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