Turismo de Praia (parte 3): QUANDO O SOL VIROU VILÃO?

"A história dos banhos de mar ensina que nenhum hábito humano é permanente. Eles nascem de necessidades, são moldados pela ciência, consagrados pelo prazer e, mais cedo ou mais tarde, transformados pelo tempo"

14 de junho de 2026

Durante boa parte do século XX, a equação parecia simples.

Praia significava sol.

E sol significava saúde.

Durante décadas, o bronzeado foi associado ao bem-estar, ao lazer, às férias e até ao status social. Ir à praia sem voltar para casa com uma nova tonalidade de pele parecia quase um desperdício de verão.

Mas essa relação começou a mudar.

Enquanto as praias enfrentam desafios físicos, como vimos na coluna anterior, outra transformação ocorre de forma mais silenciosa: a mudança da maneira como enxergamos a exposição ao sol.

E existe uma enorme ironia histórica nisso.

A praia moderna nasceu, em grande parte, por recomendação médica. Os primeiros banhos de mar eram prescritos como tratamento terapêutico. Médicos incentivavam a aproximação com o litoral e defendiam seus benefícios para a saúde.

Hoje, porém, a medicina tornou-se uma das principais vozes de alerta.

Estudos internacionais apontam crescimento significativo dos casos de câncer de pele em diversas partes do mundo. Parte desse aumento está relacionada ao envelhecimento da população, mas também aos efeitos cumulativos da exposição à radiação solar ao longo da vida.

A recomendação dos dermatologistas é conhecida: evitar a exposição ao sol nos horários de maior intensidade, especialmente entre 10h e 16h.

Curiosamente, esse é justamente o período tradicional do banho de mar.

De certa forma, estamos assistindo a um movimento inverso ao que ocorreu séculos atrás.

A medicina que ajudou a criar o hábito agora convida a repensá-lo.

Mas a mudança não acontece apenas nos consultórios.

Ela também aparece nas redes sociais e nos comportamentos das novas gerações.

Crescem entre os jovens, campanhas que associam a pele sem bronzeamento a cuidados com a saúde e prevenção do envelhecimento precoce. O uso de protetor solar se tornou mais frequente, e a busca por sombra deixou de ser vista como algo incompatível com a experiência de praia.

A própria ideia de beleza parece estar mudando.

Há algo de curioso nessa trajetória.

No século XVIII, a pele clara era símbolo de distinção social. Quem trabalhava ao ar livre se bronzeava; quem pertencia às elites procurava proteger-se do sol.

O século XX inverteu essa lógica. O bronzeado passou a representar lazer, saúde e prosperidade.

Agora, o século XXI parece iniciar mais uma mudança de direção.

Não significa que as pessoas deixarão de frequentar as praias.

Provavelmente continuarão.

Mas talvez passem menos tempo sob o sol intenso. Talvez procurem estruturas de sombra, horários alternativos e formas diferentes de aproveitar o litoral.

A praia do futuro pode ser mais protegida, mais sombreada e até mais noturna.

Menos associada ao bronzeamento.

Mais ligada à contemplação, ao esporte, à convivência e à qualidade ambiental.

A história dos banhos de mar ensina que nenhum hábito humano é permanente.

Eles nascem de necessidades, são moldados pela ciência, consagrados pelo prazer e, mais cedo ou mais tarde, transformados pelo tempo.

O mar continua ali.

As ondas seguem chegando à areia da mesma forma que chegavam para pescadores, aristocratas ingleses e veranistas de outras épocas.

O que muda é o olhar que lançamos sobre elas.

Talvez o turismo de sol e mar continue existindo daqui a cem anos.

Mas provavelmente será muito diferente daquele que conhecemos hoje — assim como o nosso já é muito diferente daquele que lhe deu origem.

 

Fontes: JAMA Dermatology — aumento global de câncer de pele (estudo citado, 2023).

INCA — Estimativa de novos casos de câncer de pele no Brasil 2023–2025. https://www.inca.gov.br

Nature Climate Change — projeções de erosão costeira global (Vousdoukas et al., 2020).

 

*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***

 




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