Quase 6 meses em cima de uma bicicleta, cruzando parte do continente sul americano. Essa foi a grande aventura que eu, Felipe Araujo Santos, porto-alegrense radicado em Torres, realizei nos últimos meses.
No dia 07.07.25, deixei a casa de minha família em Torres e comecei a pedalar. Junto a minha bicicleta, algumas bolsas penduradas para levar o necessário para a jornada. O objetivo final era a cidade de Ushuaia, na Argentina, também conhecida como o “Fim do Mundo”. Isso, por estar localizada no ponto mais austral do continente americano. Quando decidi fazer uma viagem de bicicleta tinha várias opções, mas optei por essa justamente por ser a mais difícil. Pela distância, terrenos irregulares, trechos desérticos, frio extremo e, principalmente, pelo vento.
A região da Patagônia, a qual eu cruzaria em boa parte de minha viagem, é considerada uma das mais ventosas do mundo. E pedalar com ventos de às vezes mais de 100kmh não é algo muito agradável, acreditem. Mas os desafios me movem, faz parte de minha natureza. Também por isso resolvi seguir a mesma linha de uma outra grande viagem que, por alguns anos, fiz pelo Brasil, onde usaria meu dinheiro apenas para comer. Transporte obviamente seria minha bicicleta. Para dormir, armaria minha barraca pelos cantos das cidades, povoados e estradas, ou seria recebido por conhecidos e possíveis amigos no caminho.
E assim foi. Durante 175 dias pedalei quase 6.000km entre Argentina e Chile, levando comigo mais ou menos 30 quilos de mantimentos distribuídos em 5 alforjas. Principalmente roupas, equipamentos para acampar e comida. Comer em um restaurante ou algo do tipo nesses países é bizarramente caro. Não existe a cultura da boa e velha marmita brasileira que se pode encontrar com bom preço a cada esquina.
O que fez também com que, em minha viagem, eu fosse obrigado a cozinhar muito mais. O que eu, particularmente, não gostava por alguns motivos. Primeiro pelo tempo que demandava. O ato de ir ao mercado, comprar comida, cozinhar e limpar, num dia a dia mais convencional já nos dá preguiça. Mas quando se pedala um dia inteiro e ainda tem que buscar um lugar seguro e protegido para passar a noite, isso fica potencialmente pior. Depois, porque assim eu perdia muito da cultura local. Comer a comida do lugar é experimentar a cultura. Mas era uma cultura que aceitei perder em partes, por poder usar o mesmo valor de uma refeição em um restaurante para alguns bons dias de alimentação cozinhando.

Da monotonia dos campos ao esplendor dos Andes
Pedalava uma média de 90km por dia. Em cima da bicicleta, ficava em torno de umas 6 horas. Considerando mais umas duas horas de paradas para descansar e comer, me gerava uma média diária de viagem de 8 horas. Meus primeiros 1.500km, de Torres até a cidade de Córdoba, Argentina, foram os mais tediosos. Campo, campo e mais campo. E tudo no ápice do inverno, onde o frio e a umidade extrema deixavam minha rotina mais dura.

Depois de Córdoba, as montanhas começaram a aparecer e a viagem passou a fazer mais sentido. Principalmente quando cheguei na Cordilheira dos Andes, na província argentina de Mendoza. Esse dia em específico foi um dos mais emocionantes de minha jornada. Não só por ver pela primeira vez montanhas gigantescas cobertas por neve, mas também por entender que havia chegado lá pedalando e sozinho. Nesse ponto eu já tinha pedalado quase 3.000km.
Nos cerca de 3.000km restantes, essa mesma Cordilheira dos Andes estava ao meu lado diariamente, o que me fez conhecer paisagens difíceis de explicar em palavras. Eu estava na Patagônia, lugar considerado por muitos como uma dos mais lindos do mundo. E como já falei, tempos ventosos me acompanhavam. O que por muitas vezes me fez ficar dias parado em um mesmo lugar esperando que o vento parasse. Bastou eu pedalar apenas um dia com vento extremo para entender que não faria isso novamente. Esperaria.

Entre a Carretera Austral e o Ushuaia
Descendo rumo ao Sul, depois de chegar à Cordilheira, pela famosa Ruta 40 (estrada que corta toda Argentina de norte a sul), cruzei as províncias de Mendoza, Neuquen, Rio Negro e parte de Chubut. Uma região cercada de montanhas e lagos dignos que tela de fundo do computador. Quando já havia fechado 4.000km resolvi entrar no Chile. O lado Argentino, daquele ponto em diante, passava a ficar mais desértico e ainda mais ventoso. Enquanto isso, pelo lado chileno começava a famosa Carretera Austral. Uma estrada que cruza o extremo sul do Chile que os próprios argentinos diziam ser ainda mais linda que a Ruta 40. E de fato era. E para melhorar, o vento não existia no lado chileno. Porém, a chuva e os terrenos ainda mais irregulares sim. Mas foi lá também que encontrei outros cicloviajantes. Até então, tinha conhecido apenas um casal de suíços no lado Argentino. No Chile, já no primeiro dia devo ter visto mais de 10. Isso porque a Carretera Austral é tida como a capital mundial de ciclo turismo. Muitos estrangeiros, sobretudo europeus, durante suas férias fazem o seu trajeto total que tem pouco mais de 1.000km. Esse foi um momento completamente novo para mim. Sempre tinha “amigos” por perto. Até então estava sempre muito sozinho. O que eu gosto, por um lado. Curtir minha própria companhia e poder olhar para dentro de mim. Mas por muito tempo cansa. Então esse novo momento chegou em uma ótima hora.

No fim da Carretera Austral, fechando 5.000km, cheguei ao pequeno povoado de Villa Ohigins. Para seguir adiante ao sul, não existiam mais estradas. Foi quando entrei em um barco que, depois de 48h passando pelos fiordes chilenos, cercado de montanhas glaciares e cachoeiras espetaculares, cheguei na cidade de Puerto Natales. De lá em diante, nos últimos 800km de minha viagem até chegar ao Ushuaia, conheci um outro lado da Patagônia. Frio extremo, câmbios climáticos repentinos, zonas desérticas e muitos guanacos (animal típico da Patagônia que se assemelha muito a uma lhama). O vento também era extremo, mas quase todos os dias eu tinha ele a meu favor, o que me fez finalizar minha viagem em poucos dias de pedalada.
E assim, ainda em 2025, no dia 29.12, cheguei no meu destino final, Ushuaia. O Fim do Mundo. O extremo do extremo sul do continente americano. De lá em diante não havia mais estradas, apenas o oceano que se aproximava cada vez mais da Antártida.
A força do autoconhecimento
Esse é um brevíssimo resumo de uma viagem que foi pura intensidade física e psicológica. Como eu costumo dizer, uma viagem de longa data em cima de uma bicicleta é linda, mas duríssima. Por muitas vezes chorei. Algumas vezes de mais pura felicidade de me encontrar em lugares surreais, outras de tristeza ou até mesmo raiva. Como costuma acontecer em uma viagem como essa, meu estado emocional mudava repentinamente. Da felicidade para a tristeza, da tristeza para a felicidade. Tudo num piscar de olhos.
Como disse anteriormente, já viajei por alguns anos pelo Brasil e aprendi que a dor traz o crescimento. Um estereótipo muito usado principalmente no meio de academias: “No pain, no gain”. Ou seja, sem dor, sem crescimento. Mas isso não vale apenas para nossos músculos, amigos. Isso vale também para nossa alma. Talvez eu escreva um livro com todos os detalhes, histórias, aprendizados e sentimentos que vivi nessa grande jornada. Mas o que posso antecipar por aqui para vocês, leitores, é o que eu já venho pregando a alguns anos. Não deixem de viver aquilo que querem viver por medo ou falsas justificativas. O cérebro humano tende sempre a buscar meios para justificar alguma nova atitude. O medo da mudança. O medo do novo. O medo do desconforto. Tudo isso faz com que busquemos qualquer pretexto para evitar a mudança.

“Ah, mas tu é jovem, eu já não tenho mais idade pra fazer isso”.
Conheci pessoas de mais de 70 anos que viajam a anos em uma bicicleta.
“Ah, mas eu não tenho dinheiro para fazer isso”.
Conheci pessoas que viajam sem uma mísera moeda em seu bolso.
“Ah, mas tu não tem filhos”.
Conheci uma família onde um menino de 11 e uma menina de 5 anos viajavam junto com seus pais. Todos pedalando.
Não falo apenas sobre sair e viajar em cima de uma bicicleta. Isso é apenas um simbolismo. Extremo, mas um simbolismo. Falo de escutar a si mesmo, entender o que realmente te faz (ou pode te fazer) feliz e ir atrás disso. Deixar um relacionamento onde a conexão já morreu faz anos. Deixar um trabalho que pode estar te matando diariamente por dentro de forma silenciosa. Deixar de morar em um lugar onde não mora tua felicidade. Deixar de ter medo. Se questionar. Sair do mesmo e buscar algo que te ilumine por dentro. Experimentar o novo. Nosso critério de felicidade muda a medida que experimentamos o novo. É aí que nos damos conta de que não éramos felizes, apesar de crer que sim. Ou que sim, éramos e não sabíamos.
Se conheçam. Vão atrás de vocês mesmos. Não tem nada mais libertador e lindo do que nos conhecermos efetivamente. É daí que a mais pura, leve e simples felicidade reina.

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